Volta a Portugal: há um país que chama por nós (parte 2)

Durante sete dias fiz aquilo a que eu chamei uma “Volta a Portugal”. Foram sete dias intensos, onde percorri cerca de 1.600 quilómetros. Porque nem sempre é (só) o destino que importa, mais do que a soma dos quilómetros, foi ver o país desfilar, lento e generoso, pela janela do carro.
Durante uma semana deixei que as paisagens me atravessassem: dos verdes das serras do norte, aos dourados das planícies alentejanas, numa rotação de montes, rios e vales, de vilas e aldeias de gente infinitamente generosa, de aromas e sabores deliciosos.
Curva após curva, recta após recta, fui traçando uma linha ao longo do asfalto, que foi ganhando espessura e emoção através da geografia íntima de um território que pede para ser percorrido com calma. Esta é a segunda parte dessa magnífica viagem.

Sertã: a “Princesa da Beira”
Depois de Pedrógão Pequeno, a estrada levou-me até à Sertã, uma vila conhecida como “Princesa da Beira”. A ocupação humana nestas terras remonta a tempos muito antigos. A região possui importantes vestígios arqueológicos que atestam uma ocupação desde a pré-história até aos períodos romano e islâmico.
O topónimo “Sertã” está associado a uma lenda; a sua origem está ligada a Quinto Sertório, um militar romano que se havia juntado aos Lusitanos, e que terá edificado um castelo, em 74 a.C., como parte de uma rede de fortificações em torno da Serra da Estrela. Num dos cercos romanos, o castelo estava a ser atacado pelas tropas romanas e o chefe do castelo (marido de Celinda) acabou por ser morto. Ao saber da notícia, Celinda estava na cozinha a fritar ovos numa sertã com azeite a ferver, furiosa e corajosa, subiu às muralhas e atirou o azeite a ferver e a sertã contra os soldados inimigos, forçando-os a recuar. A vila ganhou o nome de “Sertã” em homenagem a esta arma improvisada.
O calor apertava e a sombra da alameda da Carvalha, junto à Ponte Filipina foi reconfortante. O que resta do castelo ergue-se no ponto mais alto da vila, junto à Capela de São João Baptista. A igreja matriz (século XVI) apresenta traços manuelinos. Apesar do calor o tempo continuava a correr e era necessário prosseguir viagem.

Portas do Ródão: o Tejo entre gigantes de quartzo
Agora tinha que começar a virar a minha orientação para o Alto Alentejo, em direcção a Campo Maior. Mas o olhar do GPS ainda me haveria de levar a outro local impressionante. A estrada levou-me até bem perto de Vila Velha de Ródão, onde se encontra um dos mais impressionantes geomonumentos de Portugal: o Monumento Natural das Portas do Ródão.
As Portas do Ródão são uma formação geológica resultante da intersecção do duro relevo quartzítico da Serra das Talhadas com o curso do rio Tejo. Neste local, à semelhança do Cabril do Ceira (mas em ponto maior) o vale estreita-se de forma dramática, correndo entre duas paredes escarpadas que atingem cerca de 170 metros de altura, fazendo lembrar duas “portas”.
O estrangulamento do rio tem apenas 45 metros de largura no ponto mais estreito, criando uma garganta fluvial impressionante. Do miradouro, descortina-se a garganta profunda que o rio escavou nas resistentes cristas quartzíticas da serra do Perdigão, com uma vista que se perde ao longe, seguindo o curso do maior rio da Península Ibérica.
A formação das Portas do Ródão é o resultado de um longo processo geológico que se estende por centenas de milhões de anos. O encaixe do Tejo começou por erosão remontante, há cerca de 2,6 milhões de anos, aproveitando acidentes tectónicos associados à falha do Pônsul. Calcula-se que no passado o rio corria planície fora e despenhava-se num enorme lago através de uma impressionante queda de água. Ao longo dos tempos o rio foi cavando o seu leito, a queda de água foi desaparecendo e o leito do rio foi ficando nivelado com o lago e, hoje, temos este magnífico monumento natural com duas enormes paredes escarpadas.

Nisa: uma pausa rápida no coração do Alto Alentejo
Após as Portas do Ródão, definitivamente apontei agulhas para o Alto Alentejo e segui até Nisa, uma vila genuína do Alto Alentejo, no distrito de Portalegre, que merecia muito mais tempo do que aquele que lhe pude dedicar. Fica para a próxima – mas mesmo numa breve paragem, foi possível sentir o carácter tranquilo e autêntico deste lugar.

Nisa é uma vila de raízes medievais, cuja origem remonta ao século XII, relacionada com a Ordem dos Templários. A povoação foi doada à Ordem do Templo por D. Sancho I, e o seu nome está ligado à Herdade da Açafa, onde viria a nascer a vila.
O centro histórico de Nisa é compacto e deve ser percorrido sem pressa, num passeio que convida a abrandar e a observar os detalhes. A entrada no núcleo histórico faz-se naturalmente pela Porta da Vila, uma das antigas entradas da povoação fortificada, com um arco quebrado flanqueado por duas torres quadradas com ameias. As ruas estreitas do seu centro histórico refletem a sua origem medieval. A rua de Santa Maria é a artéria mais famosa da vila e considerada uma das ruas mais bonitas de Portugal. Esta antiga via medieval foi reabilitada e agora apresenta uma calçada artística que reproduz os desenhos da tradicional Olaria Pedrada.
Na vila pode percorrer as suas ruas tradicionais, ver a Porta da Vila, a Porta de Montalvão, a matriz e o largo do município onde se encontram o Pelourinho e a igreja da Misericórdia. Passe ainda pelo Núcleo Museológico do Bordado / Casa das Memórias, pelo Museu do Bordado e do Barro e pelo Centro de Artes & Ofícios.
Nisa é uma vila encantadora que cativou-me. Um dia, vou ter que dedicar mais tempo a esta localidade medieval no coração do Alto Alentejo.

Arronches: uma vila raiana entre planícies e memória
Depois de Nisa, segui até Arronches, uma pequena vila raiana do Alto Alentejo, no distrito de Portalegre, que se estende sobre uma paisagem de planícies largas, montados de sobreiro e azinho, e olivais que parecem não ter fim.
Arronches é uma vila de casario branco, típico do Alentejo, que convida a abrandar e a perder-se nas suas ruas tranquilas. A sua história remonta a tempos muito antigos – há quem diga que foi fundada no tempo do imperador Caio Calígula, no século I, e que o seu nome deriva de uma povoação romana edificada junto à ribeira de Caia.
Vale a pena dar um passeio pelas ruas antigas de Arroches e descobrir o casario tradicional alentejano e os arcos medievais espalhados pela vila. O (que resta do) seu castelo medieval (século XIV), a bonita igreja matriz, igreja de Nossa Senhora da Assunção, um templo do século XVI, junto ao edifício dos Paços do Concelho e a Fonte do Vassalo. Com tempo visite o Museu de (A) Brincar e o Centro Interativo da Ruralidade de Arronches.

Marco: a aldeia dividida entre Portugal e Espanha
Nas imediações de Arronches, onde a terra alentejana sussurra e guarda segredos antigos a cada esquina, esconde-se a pequena aldeia de Marco, uma das localidades mais singulares de Portugal. Aninhada nas margens da ribeira de Abrilongo, esta pequena localidade raiana desafia a própria ideia de fronteira: Marco é só uma aldeia, mas tem duas pátrias, sendo, ao mesmo tempo, portuguesa e espanhola (à semelhança de Rio de Onor, no Parque Natural de Montesinho, que também é atravessada pela linha de fronteira). Do outro lado das águas da ribeira, a aldeia abraça o mesmo nome, El Marco, no município de La Codosera. A aldeia apresenta cerca de uma vintena de casas do lado espanhol e apenas meia-dúzia do lado português mas, na prática, a linha invisível da fronteira desfaz-se no quotidiano dos seus habitantes; as duas margens fundem-se num único povoado, onde os sotaques se misturam e os vizinhos partilham a mesma alma. O batismo desta terra carrega a história inscrita na pedra. O nome terá nascido dos marcos geodésicos e divisórios erguidos após o Tratado de Lisboa, de 1864, que desenhou os contornos definitivos entre os reinos de Portugal e de Espanha. Com a demarcação oficial da linha de fronteira ao longo da Ribeira de Abrilongo, foram colocados marcos de pedra numerados para sinalizar a divisão territorial. O marco fronteiriço 713-B ficou situado precisamente junto à ponte pedonal. Devido à presença destas pedras de demarcação (marcos), os habitantes de ambos os lados da ribeira começaram a referir-se àquele local específico como “o Marco”. Com o tempo, o termo acabou por baptizar oficialmente as duas partes da aldeia.
A unir o que a geografia dividiu está a pequena Ponte do Marco, conhecida como a ponte internacional mais pequena do Mundo. Com seis metros de comprimento e dois de largura, esta singela passagem foi palco de silêncios e mistérios na época áurea do contrabando. Hoje, os passos clandestinos deram lugar a encontros entre dois povos que vivem numa mesma comunidade, transformando uma antiga linha divisória num memorial vivo de paz e cumplicidade cultural entre dois povos irmãos.

Cascata do Pego do Inferno: um refúgio natural escondido
Também perto de Arronches encontra-se umas das pérolas escondidas do Alto Alentejo e, com o calor que estava, vinha mesmo a calhar: a Cascata do Pego do Inferno, que também já tinha merecido um Hot Spot aqui no blog Linha de Terra.
A Cascata do Pego do Inferno, em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede, situa-se próximo da aldeia de Mosteiros, e é também conhecida como Cascata da Ribeira de Arronches. A ribeira de Arronches atravessa um leito repleto de rochas formando pequenos poços de água ao longo do seu curso. A Cascata está inserida num vale não muito profundo, rodeado por blocos graníticos que criam um cenário de grande beleza natural escondido e isolado.

Campo Maior: o ponto alto desta viagem
Depois de Arronches, cheguei finalmente a Campo Maior, o destino que, desde o início, sabia que seria o ponto alto desta viagem. Campo Maior não é apenas mais uma vila alentejana. É um lugar que guarda uma identidade própria, marcada pela história, pela proximidade com a fronteira e, acima de tudo, pelas Festas do Povo, uma celebração única que transforma a vila num enorme mar de flores de papel que cobre ruas, praças e fachadas.
Aqui, a viagem ganharia um novo significado. Não se tratava apenas de percorrer quilómetros ou de visitar lugares. Tratava-se de chegar a um destino que, de alguma forma, tinha estado presente desde o início.
A história de Campo Maior remonta a tempos muito antigos, mas foi durante a Idade Média que a vila ganhou importância estratégica, devido à sua localização fronteiriça. O Castelo de Campo Maior, construído no século XIII, é um dos monumentos mais emblemáticos da vila e foi um dos principais pontos de defesa da raia alentejana. Foi aqui que se assinou, em 1297, o Tratado de Alcanizes, que definiu grande parte da fronteira entre Portugal e Castela. Na vila ainda pode visitar a Igreja Matriz de São João Baptista, a Capela dos Ossos, o Museu Aberto (um espaço fascinante que mostra a história da vila), a Casa das Flores (centro interpretativo dedicado às Festas do Povo, onde se pode conhecer o processo de criação das flores de papel) e o Museu de Arte Sacra.

Festas do Povo de Campo Maior
As Festas do Povo de Campo Maior, o principal motivo desta “Volta a Portugal”, são uma das tradições mais singulares de Portugal, classificadas como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO desde 2021.
As origens das Festas do Povo encontram-se nas antigas celebrações religiosas em honra de São João Baptista, padroeiro de Campo Maior, cuja devoção na vila remonta ao início do século XVI.
A tradição de decorar as ruas começou no ano de 1897, marcando o início das Festas do Povo como hoje são conhecidas. Inicialmente, as decorações eram feitas com elementos naturais mas, a partir de inícios do século XX, começou a usar-se ornamentos em papel, com predomínio das flores. As festas começaram por se realizar num fim-de-semana, sendo mais tarde alargada a sua duração para uma semana. Não se realizam todos os anos, nem com periodicidade regular – acontecem quando o povo quer, ou seja, quando a comunidade decide mobilizar-se para as organizar.

As Festas do Povo consistem na ornamentação das ruas, maioritariamente no seu centro histórico, com flores de papel e outros objetos em cartão e papel, feitos artesanalmente pela população. Cada rua prepara a sua própria decoração e, durante alguns dias, transforma-se completamente. São cerca de um centena de ruas enfeitadas, num total de aproximadamente dez quilómetros de artérias decoradas por milhares de voluntários.
Eu já tinha tido oportunidade de conhecer Campo Maior mas visitar a vila na altura das Festas do Povo é uma experiência única. Percorrer as ruas de Campo Maior durante as Festas do Povo é entrar num conto de fadas e testemunhar uma das maiores e mais bonitas manifestações de cultura popular do Mundo. Nesta altura, a vila transforma-se por completo, num trabalho incrível de centenas de voluntários que, durante meses, moldam à mão milhões de flores de papel. As artérias da vila ficam decoradas por ramadas de flores que fazem desaparecer os telhados da casas e o céu (e o sol quente do Alentejo). São dezenas de tectos rendilhados e coloridos que revelam um novo cenário ao virar de cada esquina. Cada qual mais belo que o anterior.

Há uma atmosfera de partilha nas ruas de Campo Maior onde é comum ver as gentes da terra sentadas às portas das suas casas a oferecer uma bebida ou a meter conversa com os turistas e explicar como dobraram aquele papel ou quantas noites passaram sem dormir. Para além de toda a festa, sente-se no ar uma energia de partilha e de comunhão que une residentes e quem visita. Esta é, talvez, a expressão máxima de trabalho comunitário.
Visitar Campo Maior nesta altura é uma experiência profundamente sensorial e emocional que nos faz sentir pequenos perante a escala do evento e, ao mesmo tempo, inspirados pela capacidade de união de um povo. Visitar Campo Maior durante as Festas do Povo é uma experiência emocionante, cuja memória visual permanecerá inapagável na nossa mente.
Após visitar as Festas do Povo em Campo Maior, a viagem entrou nitidamente numa segunda fase. Agora, sem destinos marcados, sem pressas e sem qualquer rota. Daqui para a frente o caminho seria feito de descobertas inesperadas, de castelos fronteiriços, de fortalezas, de cidades e vilas monumentais e de praias fluviais onde o tempo parece abrandar.

Ouguela: a fortaleza perdida na planície
Depois de dois dias a visitar as Festas do Povo em Campo Maior, fui relembrar a Fortaleza de Ouguela onde já tinha estado e que também já mereceu um trabalho aqui no blog. Ouguela é uma terra de fronteira, uma pequena aldeia que guarda um dos conjuntos fortificados mais impressionantes do Alentejo e cuja história está intimamente ligada às disputas entre Portugal e Castela ao longo dos séculos. As origens do local remontam ao período pré-romano, quando aqui existia um povoado proto-histórico. Depois, terá sido ocupado pelos Romanos, pelos Visigodos e, a partir do século VIII, pelos Muçulmanos, que aqui terão construído uma fortaleza.
A vila de Ouguela foi definitivamente integrada na coroa portuguesa com o Tratado de Alcanizes, assinado em 1297 entre Portugal e o reino de Leão e Castela. No ano seguinte, em 1298, o rei D. Dinis concedeu-lhe foral e ordenou a reconstrução da fortificação, que passou a fazer parte do sistema defensivo da raia alentejana.
O conjunto fortificado de Ouguela é um exemplo raro de arquitetura militar medieval e moderna, onde se misturam as estruturas do castelo do século XIII com as fortificações abaluartadas do século XVII. A fortificação original contava com sete torres quadrangulares, entre as quais a torre de menagem adossada à cerca.
No interior da fortaleza, encontra-se a cisterna quadrangular, com 12 metros de lado, que servia para armazenar água em caso de cerco. É uma das estruturas mais impressionantes do conjunto e um testemunho da importância estratégica deste lugar.
Do alto da colina onde se ergue a fortaleza, a cerca de 260 metros de altitude, descortina-se uma vista deslumbrante sobre a planície alentejana e sobre a fronteira com Espanha. É um local privilegiado para observar o pôr do sol e para perceber a importância estratégica deste lugar ao longo dos séculos.

Elvas: a cidade-quartel
Depois de Ouguela, segui até Elvas, uma das cidades mais impressionantes do Alentejo e um dos conjuntos fortificados mais importantes do Mundo.
Elvas é uma cidade de fronteira, cuja história está intimamente ligada às disputas entre Portugal e Espanha ao longo dos séculos. A cidade conserva vestígios que remontam ao século X, mas as suas fortificações datam, sobretudo, da época da Restauração da Independência de Portugal, em 1640.
Após a independência, Elvas tornou-se numa praça de guerra de primeira linha, e foi necessário reforçar a sua defesa com uma nova e moderna fortificação, capaz de fazer frente aos avanços da artilharia. Entre os séculos XVII e XIX, a cidade foi sendo fortificada, tornando-se no maior sistema de fortificações abaluartadas de fosso seco do Mundo, com um perímetro de oito a dez quilómetros e uma área de 300 hectares.
Em 2012, a UNESCO classificou o conjunto como Património Mundial da Humanidade, na categoria de "Cidade-Quartel Fronteiriça de Elvas e suas Fortificações".
Centro histórico de Elvas no interior das suas muralhas defensivas é um dos mais bem preservados do Alentejo, com as suas ruas estreitas, praças e edifícios que contam a história da cidade ao longo dos séculos. Depois de uma volta pela cidade antiga e pela passagem pelo Aqueduto da Amoreira, construído no final do século XV para abastecer a cidade de água, e um dos monumentos mais emblemáticos de Elvas, não pode deixar de fazer uma visita a dois edifícios militares: o Forte de Nossa Senhora da Graça, construído no século XVIII, e um dos monumentos militares mais impressionantes de Portugal; e o Forte de Santa Luzia, integrado no sistema defensivo da cidade.

Ponte da Ajuda: as ruínas de uma ponte que uniu dois reinos
Perto de Elvas, ficam as ruínas da Ponte da Ajuda, um dos monumentos mais impressionantes e simbólicos da fronteira entre Portugal e Espanha.
A Ponte da Ajuda, também conhecida como Ponte de Nossa Senhora da Ajuda ou Ponte de Olivença, situa-se sobre o rio Guadiana, ligando o município de Elvas, ao município de Olivença, atualmente sob domínio espanhol.
A ponte foi mandada construir pelo rei D. Manuel I, em 1510, com a função de assegurar a operação das forças militares portuguesas na margem esquerda do rio Guadiana, em apoio ao Castelo de Olivença. A obra foi atribuída aos irmãos Arruda, os mesmos arquitetos que projetaram a Torre de Belém em Lisboa, e foi construída num local onde já havia existido uma ponte em pedra desde o século XIV.
A Ponte da Ajuda era uma obra monumental da engenharia renascentista portuguesa. Tinha 19 arcos cerca de 400 metros de comprimento, cinco de largura, e cerca de 16 metros de altura acima das águas do Guadiana. No centro da ponte, erguia-se uma torre fortificada de três pisos, com vários aposentos, que servia para controlar a passagem e defender a estrutura em caso de ataque.
A ponte foi parcialmente destruída em 1709, durante a Guerra da Sucessão Espanhola, quando as tropas espanholas a fizeram explodir para impedir a passagem das forças portuguesas. Desde então a ponte permanece em ruínas, sem ter sido reconstruida.
A capela existente nas imediações da Ponte da Ajuda chama-se Capela de Nossa Senhora da Ajuda (também referida como Ermida de Nossa Senhora da Ajuda). A capela foi construída no século XVI, durante o período manuelino, e está intimamente ligada à história da própria ponte. A capela servia como local de devoção para os viajantes que atravessavam o rio Guadiana.

Fortaleza de Juromenha: a chave do Guadiana
O improviso levou-me até à Fortaleza de Juromenha,, uma das praças-fortes mais importantes da fronteira do Guadiana, cuja história se estende por mais de mil anos.
Já no município do Alandroal, o local ergue-se num cerro elevado sobranceiro ao rio Guadiana, um ponto natural de travessia que atraiu povoamentos desde a antiguidade. Alguns textos e tradições orais apontam para uma fundação galo-celta (por volta de 400 a.C.), servindo de base militar muito antes da romanização da região, no entanto, não existem provas arqueológicas deste período. As primeiras referências a Juromenha datam da segunda metade do século IX, ainda sob domínio muçulmano. Durante mais de duzentos anos, este local foi considerado a praça-forte de defesa da área de Badajoz, pertencendo desde o século X ao Califado de Córdoba.
A fortaleza mudou de mãos várias vezes ao longo dos séculos: em 1167, D. Afonso Henriques conquistou a fortaleza aos mouros; em 1191, voltou ao domínio do Califa Almansor; e em 1242 (ou 1243), foi definitivamente reconquistada pela Coroa portuguesa, por D. Paio Peres Correia.
Com o início da Guerra da Restauração, em 1640, a fortaleza foi sujeita a importantes obras de remodelação e readaptação para resistir à nova artilharia. A construção da fortaleza abaluartada começou em 1646, com base num projeto do engenheiro francês Nicolau de Langres, e demorou cerca de 14 anos.
Em 1659, ocorreu uma grande explosão do paiol de pólvora que destruiu a maior parte da fortaleza, incluindo o antigo paço e a torre de menagem do castelo medieval. A explosão foi provocada por um incêndio acidental, mas as circunstâncias exatas permanecem incertas. A explosão causou a morte de mais de 100 pessoas, o governador da praça, o médico, três padres e três mestres. Foi um desastre de grandes proporções que marcou profundamente a história da fortaleza.
A fortaleza está em obras de consolidação e restauro do perímetro abaluartado exterior e da cerca islâmica e medieval interior desde 2018.
Esta Volta a Portugal continua...





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