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Venha descobrir Portugal comigo!

Oito anos de Linha de Terra

Há viagens que começam com um mapa aberto sobre a mesa – agora com o mapa aberto no computador, numa fotografia guardada há demasiado tempo, numa estrada que se insinua ao longe, ou numa vontade, difícil de explicar, de descobrir o que existe depois da próxima curva. O projecto Linha de Terra nasceu dessa vontade de ir e de descobrir. O projecto Linha de Terra nasceu com uma intenção simples: partir sem pressa e de olhar para Portugal com tempo, mais devagar, mais naturalmente e com os pés no chão. Queria partir por esse país fora, não apenas para o reconhecer, mas para o descobrir.


Portugal genuíno

Há oito anos dei os primeiros passos neste caminho, comecei a traçar esta linha entre mim e o território. Uma linha feita de estradas, trilhos, rios, montanhas, castelos e lugares que pediam para serem vistos com mais atenção. Desde então, este blog tem sido uma espécie de horizonte em movimento, um diário de viagem, um arquivo de memórias, um espaço de descoberta, de reflexão, de crítica e uma forma de olhar para este país maravilhoso com mais atenção. Um blog onde cabem os lugares menos óbvios, as estradas secundárias que se perdem entre montes e vales, aldeias adormecidas onde o tempo, há muito, parece ter parado, castelos com memória, praias onde o Verão parece durar mais tempo, paisagens que chamam por nós e trilhos escondidos que nos levam até ao lugar onde o mapa termina.

Gosto de lugares que não se entregam de imediato, que nos obrigam a ficar lá, a escutar, a observar e sentir. Gosto das estradas secundárias que não prometem chegar depressa a lado nenhum, mas que nos levam mais longe. É nestes lugares que encontro o Portugal genuíno. Tenho procurado lugares, mas talvez tenha procurado, sobretudo, aquilo que os lugares guardam e que têm para nos contar: a história que se esconde numa parede de pedra, o silêncio de uma aldeia quando a tarde cai, o som da água que corre por entre as rochas, uma estrada interminável que se alonga diante do carro e nos leva para longe da pressa, o rosto de quem ainda vive em lugares distantes e lhes dá alma e uma presença que nenhuma fotografia consegue retratar.

Algumas viagens nasceram de uma ideia planeada, outras começaram simplesmente com a vontade de seguir uma estrada ou fazer um desvio. Procuro encontrar e trazer aos meus leitores mais do que apenas um lugar bonito, contar os lugares sem os reduzir a uma mera lista de locais a visitar. Quero sentir o lugar. Interessa-me a História que permanece gravada nas pedras, as marcas deixadas por quem ali passou antes de nós, a relação entre a paisagem e as pessoas. Contar as viagens sem apagar os desvios. Contar Portugal através das suas paisagens, do seu património, das suas gentes e das pequenas histórias que, tantas vezes, ficam fora dos caminhos mais percorridos. Tento que cada artigo seja uma pequena viagem oferecida a quem lê. Uma tentativa de aproximar um lugar, de despertar uma curiosidade, de fazer nascer o desejo de partir, de deixar uma porta aberta para que cada leitor possa fazer a sua própria descoberta. E cada mensagem recebida, cada pessoa que me diz ter descoberto um lugar através do blog, cada comentário ou partilha lembra-me que estas histórias não ficam apenas deste lado do ecrã. Continuam caminho quando chegam a alguém.


O meu caminho

Ao longo deste período o caminho nem sempre foi fácil – e este último ano tem sido particularmente exigente entre o gerir horários, tarefas e controlar sentimentos. Manter um projecto independente durante oito anos exige tempo, disciplina e uma vontade férrea que nem sempre se revela nos dias mais cansativos. Há textos que demoram a nascer, pesquisas que se prolongam por dias, fotografias que precisam de ser escolhidas e ideias que ficam no papel a aguardar o momento certo. Mas tem sido, sobretudo, um projecto feito de gosto e de insistência, construído pouco a pouco, entre viagens, fotografias, pesquisas, textos, muitas horas diante do computador e muitas horas de sono perdidas – os meus médicos que me desculpem, mas é a única maneira que tenho para “fazer crescer” o meu dia. O blog Linha de Terra foi crescendo devagar, entre viagens, entre a vontade de querer fazer e a necessidade de esperar. Nem sempre com a regularidade desejada, nem sempre com a certeza do caminho certo, mas sempre com uma convicção: este é o caminho que eu gosto, este é o caminho que quero seguir, por isso, vale a pena continuar.

Não meço este projecto pelo número de publicações ou pelo número de seguidores, mas sim pelas descobertas que proporciona, pelas viagens que inspira, pelas pessoas que encontro e pelas relações que vou construindo pouco a pouco. O projecto Linha de Terra cresceu convosco e também graças a vós. Por isso, neste aniversário, quero agradecer-vos. A quem acompanhou o Linha de Terra desde o início, a quem o descobriu mais tarde, a quem lê em silêncio, a quem partilha, comenta, manda mensagens, sugere lugares ou simplesmente guarda uma destas viagens para um dia mais tarde. O projecto Linha de Terra também é feito dessa presença. A todos, muito obrigado. Obrigado por estarem desse lado, por acompanharem este caminho e por continuarem a descobrir Portugal comigo.


Uma nova viagem

Hoje, assinalar esta data, não representa apenas fazer uma paragem para olhar para trás, representa também o início de uma nova direcção, um novo caminho. Porque há viagens que começam muito antes da partida, quero aproveitar a ocasião para falar do que está a começar. Nos últimos tempos tenho trabalhado numa nova etapa do projecto Linha de Terra, numa nova forma de prolongar este caminho que temos vindo a percorrer. Uma forma de levar algumas das minhas ideias e algumas destas viagens para além do blog. É uma nova etapa e um novo caminho do projecto Linha de Terra, é o desenvolver de uma ideia que há muito fervilha na minha cabeça: uma nova forma de reunir estas histórias, de lhes dar espaço próprio e de as levar para lá do ecrã. O blog Linha de Terra continuará, como sempre, a percorrer Portugal e a partilhar o melhor que o nosso país tem para oferecer, (quase) sempre fora dos principais roteiros turísticos. Mas em breve, algo novo vai juntar-se a esta aventura.

O primeiro projecto já está em desenvolvimento. É uma ideia que nasce das estradas, das paisagens, e dos lugares que encontramos ao longo do caminho. Um projecto ligado a Portugal, à viagem lenta e à vontade de olhar com mais atenção para onde tantas vezes passamos depressa demais. Será um projecto de viagens, mas também de memória, de descoberta e de atenção ao território. Ainda não posso revelar todos os pormenores. O trabalho continua, entre páginas a escrever, imagens, mapas e algumas decisões finais a tomar. Mas posso dizer-vos que há novidades a caminho e que serão partilhadas muito em breve.

O que começou há oito anos como uma linha traçada no horizonte prepara-se agora para ganhar mais outra forma. Por isso, este aniversário marca não apenas oito anos de Linha de Terra, mas também o início de uma nova viagem. A estrada continua e, em breve, haverá uma nova forma de a percorrer.


 
 
Volta a Portugal

Durante sete dias fiz aquilo a que eu chamei uma “Volta a Portugal”. Foram sete dias intensos, onde percorri cerca de 1.600 quilómetros. Porque nem sempre é (só) o destino que importa, mais do que a soma dos quilómetros, foi ver o país desfilar, lento e generoso, pela janela do carro.

Durante uma semana deixei que as paisagens me atravessassem: dos verdes das serras do norte, aos dourados das planícies alentejanas, numa rotação de montes, rios e vales, de vilas e aldeias de gente infinitamente generosa, de aromas e sabores deliciosos.

Curva após curva, recta após recta, fui traçando uma linha ao longo do asfalto, que foi ganhando espessura e emoção através da geografia íntima de um território que pede para ser percorrido com calma. Esta é a segunda parte dessa magnífica viagem.



Ponte filipina da Sertã
Ponte filipina da Sertã

Sertã: a “Princesa da Beira”

Depois de Pedrógão Pequeno, a estrada levou-me até à Sertã, uma vila conhecida como “Princesa da Beira”. A ocupação humana nestas terras remonta a tempos muito antigos. A região possui importantes vestígios arqueológicos que atestam uma ocupação desde a pré-história até aos períodos romano e islâmico.

O topónimo “Sertã” está associado a uma lenda; a sua origem está ligada a Quinto Sertório, um militar romano que se havia juntado aos Lusitanos, e que terá edificado um castelo, em 74 a.C., como parte de uma rede de fortificações em torno da Serra da Estrela. Num dos cercos romanos, o castelo estava a ser atacado pelas tropas romanas e o chefe do castelo (marido de Celinda) acabou por ser morto. Ao saber da notícia, Celinda estava na cozinha a fritar ovos numa sertã com azeite a ferver, furiosa e corajosa, subiu às muralhas e atirou o azeite a ferver e a sertã contra os soldados inimigos, forçando-os a recuar. A vila ganhou o nome de “Sertã” em homenagem a esta arma improvisada.

O calor apertava e a sombra da alameda da Carvalha, junto à Ponte Filipina foi reconfortante. O que resta do castelo ergue-se no ponto mais alto da vila, junto à Capela de São João Baptista. A igreja matriz (século XVI) apresenta traços manuelinos. Apesar do calor o tempo continuava a correr e era necessário prosseguir viagem.


Monumento natural das Portas de Ródão
Monumento natural das Portas do Ródão

Portas do Ródão: o Tejo entre gigantes de quartzo

Agora tinha que começar a virar a minha orientação para o Alto Alentejo, em direcção a Campo Maior. Mas o olhar do GPS ainda me haveria de levar a outro local impressionante. A estrada levou-me até bem perto de Vila Velha de Ródão, onde se encontra um dos mais impressionantes geomonumentos de Portugal: o Monumento Natural das Portas do Ródão.

As Portas do Ródão são uma formação geológica resultante da intersecção do duro relevo quartzítico da Serra das Talhadas com o curso do rio Tejo. Neste local, à semelhança do Cabril do Ceira (mas em ponto maior) o vale estreita-se de forma dramática, correndo entre duas paredes escarpadas que atingem cerca de 170 metros de altura, fazendo lembrar duas “portas”.

O estrangulamento do rio tem apenas 45 metros de largura no ponto mais estreito, criando uma garganta fluvial impressionante. Do miradouro, descortina-se a garganta profunda que o rio escavou nas resistentes cristas quartzíticas da serra do Perdigão, com uma vista que se perde ao longe, seguindo o curso do maior rio da Península Ibérica.

A formação das Portas do Ródão é o resultado de um longo processo geológico que se estende por centenas de milhões de anos. O encaixe do Tejo começou por erosão remontante, há cerca de 2,6 milhões de anos, aproveitando acidentes tectónicos associados à falha do Pônsul. Calcula-se que no passado o rio corria planície fora e despenhava-se num enorme lago através de uma impressionante queda de água. Ao longo dos tempos o rio foi cavando o seu leito, a queda de água foi desaparecendo e o leito do rio foi ficando nivelado com o lago e, hoje, temos este magnífico monumento natural com duas enormes paredes escarpadas.


Nisa
Nisa

Nisa: uma pausa rápida no coração do Alto Alentejo

Após as Portas do Ródão, definitivamente apontei agulhas para o Alto Alentejo e segui até Nisa, uma vila genuína do Alto Alentejo, no distrito de Portalegre, que merecia muito mais tempo do que aquele que lhe pude dedicar. Fica para a próxima – mas mesmo numa breve paragem, foi possível sentir o carácter tranquilo e autêntico deste lugar.


Uma das ruas mais bonitas de Portugal
Uma das ruas mais bonitas de Portugal

Nisa é uma vila de raízes medievais, cuja origem remonta ao século XII, relacionada com a Ordem dos Templários. A povoação foi doada à Ordem do Templo por D. Sancho I, e o seu nome está ligado à Herdade da Açafa, onde viria a nascer a vila.

O centro histórico de Nisa é compacto e deve ser percorrido sem pressa, num passeio que convida a abrandar e a observar os detalhes. A entrada no núcleo histórico faz-se naturalmente pela Porta da Vila, uma das antigas entradas da povoação fortificada, com um arco quebrado flanqueado por duas torres quadradas com ameias. As ruas estreitas do seu centro histórico refletem a sua origem medieval. A rua de Santa Maria é a artéria mais famosa da vila e considerada uma das ruas mais bonitas de Portugal. Esta antiga via medieval foi reabilitada e agora apresenta uma calçada artística que reproduz os desenhos da tradicional Olaria Pedrada.

Na vila pode percorrer as suas ruas tradicionais, ver a Porta da Vila, a Porta de Montalvão, a matriz e o largo do município onde se encontram o Pelourinho e a igreja da Misericórdia. Passe ainda pelo Núcleo Museológico do Bordado / Casa das Memórias, pelo Museu do Bordado e do Barro e pelo Centro de Artes & Ofícios.

Nisa é uma vila encantadora que cativou-me. Um dia, vou ter que dedicar mais tempo a esta localidade medieval no coração do Alto Alentejo.


Arronches
Arronches

Arronches: uma vila raiana entre planícies e memória

Depois de Nisa, segui até Arronches, uma pequena vila raiana do Alto Alentejo, no distrito de Portalegre, que se estende sobre uma paisagem de planícies largas, montados de sobreiro e azinho, e olivais que parecem não ter fim.

Arronches é uma vila de casario branco, típico do Alentejo, que convida a abrandar e a perder-se nas suas ruas tranquilas. A sua história remonta a tempos muito antigos – há quem diga que foi fundada no tempo do imperador Caio Calígula, no século I, e que o seu nome deriva de uma povoação romana edificada junto à ribeira de Caia.

Vale a pena dar um passeio pelas ruas antigas de Arroches e descobrir o casario tradicional alentejano e os arcos medievais espalhados pela vila. O (que resta do) seu castelo medieval (século XIV), a bonita igreja matriz, igreja de Nossa Senhora da Assunção, um templo do século XVI, junto ao edifício dos Paços do Concelho e a Fonte do Vassalo. Com tempo visite o Museu de (A) Brincar e o Centro Interativo da Ruralidade de Arronches.


A ponte internacional mais pequena do Mundo une o lado espanhol ao lado português da aldeia de Marco
A ponte internacional mais pequena do Mundo une o lado espanhol ao lado português da aldeia de Marco

Marco: a aldeia dividida entre Portugal e Espanha

Nas imediações de Arronches, onde a terra alentejana sussurra e guarda segredos antigos a cada esquina, esconde-se a pequena aldeia de Marco, uma das localidades mais singulares de Portugal. Aninhada nas margens da ribeira de Abrilongo, esta pequena localidade raiana desafia a própria ideia de fronteira: Marco é só uma aldeia, mas tem duas pátrias, sendo, ao mesmo tempo, portuguesa e espanhola (à semelhança de Rio de Onor, no Parque Natural de Montesinho, que também é atravessada pela linha de fronteira). Do outro lado das águas da ribeira, a aldeia abraça o mesmo nome, El Marco, no município de La Codosera. A aldeia apresenta cerca de uma vintena de casas do lado espanhol e apenas meia-dúzia do lado português mas, na prática, a linha invisível da fronteira desfaz-se no quotidiano dos seus habitantes; as duas margens fundem-se num único povoado, onde os sotaques se misturam e os vizinhos partilham a mesma alma. O batismo desta terra carrega a história inscrita na pedra. O nome terá nascido dos marcos geodésicos e divisórios erguidos após o Tratado de Lisboa, de 1864, que desenhou os contornos definitivos entre os reinos de Portugal e de Espanha. Com a demarcação oficial da linha de fronteira ao longo da Ribeira de Abrilongo, foram colocados marcos de pedra numerados para sinalizar a divisão territorial. O marco fronteiriço 713-B ficou situado precisamente junto à ponte pedonal. Devido à presença destas pedras de demarcação (marcos), os habitantes de ambos os lados da ribeira começaram a referir-se àquele local específico como “o Marco”. Com o tempo, o termo acabou por baptizar oficialmente as duas partes da aldeia.

A unir o que a geografia dividiu está a pequena Ponte do Marco, conhecida como a ponte internacional mais pequena do Mundo. Com seis metros de comprimento e dois de largura, esta singela passagem foi palco de silêncios e mistérios na época áurea do contrabando. Hoje, os passos clandestinos deram lugar a encontros entre dois povos que vivem numa mesma comunidade, transformando uma antiga linha divisória num memorial vivo de paz e cumplicidade cultural entre dois povos irmãos.


Cascata do Pego do Inferno, perto de Arronches
Cascata do Pego do Inferno, perto de Arronches

Cascata do Pego do Inferno: um refúgio natural escondido

Também perto de Arronches encontra-se umas das pérolas escondidas do Alto Alentejo e, com o calor que estava, vinha mesmo a calhar: a Cascata do Pego do Inferno, que também já tinha merecido um Hot Spot aqui no blog Linha de Terra.

A Cascata do Pego do Inferno, em pleno Parque Natural da Serra de São Mamede, situa-se próximo da aldeia de Mosteiros, e é também conhecida como Cascata da Ribeira de Arronches. A ribeira de Arronches atravessa um leito repleto de rochas formando pequenos poços de água ao longo do seu curso. A Cascata está inserida num vale não muito profundo, rodeado por blocos graníticos que criam um cenário de grande beleza natural escondido e isolado.


Campo Maior
Campo Maior

Campo Maior: o ponto alto desta viagem

Depois de Arronches, cheguei finalmente a Campo Maior, o destino que, desde o início, sabia que seria o ponto alto desta viagem. Campo Maior não é apenas mais uma vila alentejana. É um lugar que guarda uma identidade própria, marcada pela história, pela proximidade com a fronteira e, acima de tudo, pelas Festas do Povo, uma celebração única que transforma a vila num enorme mar de flores de papel que cobre ruas, praças e fachadas.

Aqui, a viagem ganharia um novo significado. Não se tratava apenas de percorrer quilómetros ou de visitar lugares. Tratava-se de chegar a um destino que, de alguma forma, tinha estado presente desde o início.

A história de Campo Maior remonta a tempos muito antigos, mas foi durante a Idade Média que a vila ganhou importância estratégica, devido à sua localização fronteiriça. O Castelo de Campo Maior, construído no século XIII, é um dos monumentos mais emblemáticos da vila e foi um dos principais pontos de defesa da raia alentejana. Foi aqui que se assinou, em 1297, o Tratado de Alcanizes, que definiu grande parte da fronteira entre Portugal e Castela. Na vila ainda pode visitar a Igreja Matriz de São João Baptista, a Capela dos Ossos, o Museu Aberto (um espaço fascinante que mostra a história da vila), a Casa das Flores (centro interpretativo dedicado às Festas do Povo, onde se pode conhecer o processo de criação das flores de papel) e o Museu de Arte Sacra.


Festas do Povo de Campo Maior, onde um mar de flores de papel enfeitam as ruas do centro histórico
Festas do Povo de Campo Maior, onde um mar de flores de papel enfeitam as ruas do centro histórico

Festas do Povo de Campo Maior

As Festas do Povo de Campo Maior, o principal motivo desta “Volta a Portugal”, são uma das tradições mais singulares de Portugal, classificadas como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO desde 2021.

As origens das Festas do Povo encontram-se nas antigas celebrações religiosas em honra de São João Baptista, padroeiro de Campo Maior, cuja devoção na vila remonta ao início do século XVI.

A tradição de decorar as ruas começou no ano de 1897, marcando o início das Festas do Povo como hoje são conhecidas. Inicialmente, as decorações eram feitas com elementos naturais mas, a partir de inícios do século XX, começou a usar-se ornamentos em papel, com predomínio das flores. As festas começaram por se realizar num fim-de-semana, sendo mais tarde alargada a sua duração para uma semana. Não se realizam todos os anos, nem com periodicidade regular – acontecem quando o povo quer, ou seja, quando a comunidade decide mobilizar-se para as organizar.


Festas do Povo de Campo Maior
Festas do Povo de Campo Maior

As Festas do Povo consistem na ornamentação das ruas, maioritariamente no seu centro histórico, com flores de papel e outros objetos em cartão e papel, feitos artesanalmente pela população. Cada rua prepara a sua própria decoração e, durante alguns dias, transforma-se completamente. São cerca de um centena de ruas enfeitadas, num total de aproximadamente dez quilómetros de artérias decoradas por milhares de voluntários.

Eu já tinha tido oportunidade de conhecer Campo Maior mas visitar a vila na altura das Festas do Povo é uma experiência única. Percorrer as ruas de Campo Maior durante as Festas do Povo é entrar num conto de fadas e testemunhar uma das maiores e mais bonitas manifestações de cultura popular do Mundo. Nesta altura, a vila transforma-se por completo, num trabalho incrível de centenas de voluntários que, durante meses, moldam à mão milhões de flores de papel. As artérias da vila ficam decoradas por ramadas de flores que fazem desaparecer os telhados da casas e o céu (e o sol quente do Alentejo). São dezenas de tectos rendilhados e coloridos que revelam um novo cenário ao virar de cada esquina. Cada qual mais belo que o anterior.


Festas do Povo de Campo Maior
Festas do Povo de Campo Maior

Há uma atmosfera de partilha nas ruas de Campo Maior onde é comum ver as gentes da terra sentadas às portas das suas casas a oferecer uma bebida ou a meter conversa com os turistas e explicar como dobraram aquele papel ou quantas noites passaram sem dormir. Para além de toda a festa, sente-se no ar uma energia de partilha e de comunhão que une residentes e quem visita. Esta é, talvez, a expressão máxima de trabalho comunitário.

Visitar Campo Maior nesta altura é uma experiência profundamente sensorial e emocional que nos faz sentir pequenos perante a escala do evento e, ao mesmo tempo, inspirados pela capacidade de união de um povo. Visitar Campo Maior durante as Festas do Povo é uma experiência emocionante, cuja memória visual permanecerá inapagável na nossa mente.


Após visitar as Festas do Povo em Campo Maior, a viagem entrou nitidamente numa segunda fase. Agora, sem destinos marcados, sem pressas e sem qualquer rota. Daqui para a frente o caminho seria feito de descobertas inesperadas, de castelos fronteiriços, de fortalezas, de cidades e vilas monumentais e de praias fluviais onde o tempo parece abrandar.


Fortaleza de Ouguela
Fortaleza de Ouguela

Ouguela: a fortaleza perdida na planície

Depois de dois dias a visitar as Festas do Povo em Campo Maior, fui relembrar a Fortaleza de Ouguela onde já tinha estado e que também já mereceu um trabalho aqui no blog. Ouguela é uma terra de fronteira, uma pequena aldeia que guarda um dos conjuntos fortificados mais impressionantes do Alentejo e cuja história está intimamente ligada às disputas entre Portugal e Castela ao longo dos séculos. As origens do local remontam ao período pré-romano, quando aqui existia um povoado proto-histórico. Depois, terá sido ocupado pelos Romanos, pelos Visigodos e, a partir do século VIII, pelos Muçulmanos, que aqui terão construído uma fortaleza.

A vila de Ouguela foi definitivamente integrada na coroa portuguesa com o Tratado de Alcanizes, assinado em 1297 entre Portugal e o reino de Leão e Castela. No ano seguinte, em 1298, o rei D. Dinis concedeu-lhe foral e ordenou a reconstrução da fortificação, que passou a fazer parte do sistema defensivo da raia alentejana.

O conjunto fortificado de Ouguela é um exemplo raro de arquitetura militar medieval e moderna, onde se misturam as estruturas do castelo do século XIII com as fortificações abaluartadas do século XVII. A fortificação original contava com sete torres quadrangulares, entre as quais a torre de menagem adossada à cerca.

No interior da fortaleza, encontra-se a cisterna quadrangular, com 12 metros de lado, que servia para armazenar água em caso de cerco. É uma das estruturas mais impressionantes do conjunto e um testemunho da importância estratégica deste lugar.

Do alto da colina onde se ergue a fortaleza, a cerca de 260 metros de altitude, descortina-se uma vista deslumbrante sobre a planície alentejana e sobre a fronteira com Espanha. É um local privilegiado para observar o pôr do sol e para perceber a importância estratégica deste lugar ao longo dos séculos.


Elvas: Aqueduto da Amoreira
Elvas: Aqueduto da Amoreira

Elvas: a cidade-quartel

Depois de Ouguela, segui até Elvas, uma das cidades mais impressionantes do Alentejo e um dos conjuntos fortificados mais importantes do Mundo.

Elvas é uma cidade de fronteira, cuja história está intimamente ligada às disputas entre Portugal e Espanha ao longo dos séculos. A cidade conserva vestígios que remontam ao século X, mas as suas fortificações datam, sobretudo, da época da Restauração da Independência de Portugal, em 1640.

Após a independência, Elvas tornou-se numa praça de guerra de primeira linha, e foi necessário reforçar a sua defesa com uma nova e moderna fortificação, capaz de fazer frente aos avanços da artilharia. Entre os séculos XVII e XIX, a cidade foi sendo fortificada, tornando-se no maior sistema de fortificações abaluartadas de fosso seco do Mundo, com um perímetro de oito a dez quilómetros e uma área de 300 hectares.

Em 2012, a UNESCO classificou o conjunto como Património Mundial da Humanidade, na categoria de "Cidade-Quartel Fronteiriça de Elvas e suas Fortificações".

Centro histórico de Elvas no interior das suas muralhas defensivas é um dos mais bem preservados do Alentejo, com as suas ruas estreitas, praças e edifícios que contam a história da cidade ao longo dos séculos. Depois de uma volta pela cidade antiga e pela passagem pelo Aqueduto da Amoreira, construído no final do século XV para abastecer a cidade de água, e um dos monumentos mais emblemáticos de Elvas, não pode deixar de fazer uma visita a dois edifícios militares: o Forte de Nossa Senhora da Graça, construído no século XVIII, e um dos monumentos militares mais impressionantes de Portugal; e o Forte de Santa Luzia, integrado no sistema defensivo da cidade.



Ponte da Ajuda: as ruínas de uma ponte que uniu dois reinos

Perto de Elvas, ficam as ruínas da Ponte da Ajuda, um dos monumentos mais impressionantes e simbólicos da fronteira entre Portugal e Espanha.

A Ponte da Ajuda, também conhecida como Ponte de Nossa Senhora da Ajuda ou Ponte de Olivença, situa-se sobre o rio Guadiana, ligando o município de Elvas, ao município de Olivença, atualmente sob domínio espanhol.

A ponte foi mandada construir pelo rei D. Manuel I, em 1510, com a função de assegurar a operação das forças militares portuguesas na margem esquerda do rio Guadiana, em apoio ao Castelo de Olivença. A obra foi atribuída aos irmãos Arruda, os mesmos arquitetos que projetaram a Torre de Belém em Lisboa, e foi construída num local onde já havia existido uma ponte em pedra desde o século XIV.

A Ponte da Ajuda era uma obra monumental da engenharia renascentista portuguesa. Tinha 19 arcos cerca de 400 metros de comprimento, cinco de largura, e cerca de 16 metros de altura acima das águas do Guadiana. No centro da ponte, erguia-se uma torre fortificada de três pisos, com vários aposentos, que servia para controlar a passagem e defender a estrutura em caso de ataque.

A ponte foi parcialmente destruída em 1709, durante a Guerra da Sucessão Espanhola, quando as tropas espanholas a fizeram explodir para impedir a passagem das forças portuguesas. Desde então a ponte permanece em ruínas, sem ter sido reconstruida.

A capela existente nas imediações da Ponte da Ajuda chama-se Capela de Nossa Senhora da Ajuda (também referida como Ermida de Nossa Senhora da Ajuda). A capela foi construída no século XVI, durante o período manuelino, e está intimamente ligada à história da própria ponte. A capela servia como local de devoção para os viajantes que atravessavam o rio Guadiana.


Fortaleza de Juromenha
Fortaleza de Juromenha

Fortaleza de Juromenha: a chave do Guadiana

O improviso levou-me até à Fortaleza de Juromenha,, uma das praças-fortes mais importantes da fronteira do Guadiana, cuja história se estende por mais de mil anos.

Já no município do Alandroal, o local ergue-se num cerro elevado sobranceiro ao rio Guadiana, um ponto natural de travessia que atraiu povoamentos desde a antiguidade. Alguns textos e tradições orais apontam para uma fundação galo-celta (por volta de 400 a.C.), servindo de base militar muito antes da romanização da região, no entanto, não existem provas arqueológicas deste período. As primeiras referências a Juromenha datam da segunda metade do século IX, ainda sob domínio muçulmano. Durante mais de duzentos anos, este local foi considerado a praça-forte de defesa da área de Badajoz, pertencendo desde o século X ao Califado de Córdoba.

A fortaleza mudou de mãos várias vezes ao longo dos séculos: em 1167, D. Afonso Henriques conquistou a fortaleza aos mouros; em 1191, voltou ao domínio do Califa Almansor; e em 1242 (ou 1243), foi definitivamente reconquistada pela Coroa portuguesa, por D. Paio Peres Correia.

Com o início da Guerra da Restauração, em 1640, a fortaleza foi sujeita a importantes obras de remodelação e readaptação para resistir à nova artilharia. A construção da fortaleza abaluartada começou em 1646, com base num projeto do engenheiro francês Nicolau de Langres, e demorou cerca de 14 anos.

Em 1659, ocorreu uma grande explosão do paiol de pólvora que destruiu a maior parte da fortaleza, incluindo o antigo paço e a torre de menagem do castelo medieval. A explosão foi provocada por um incêndio acidental, mas as circunstâncias exatas permanecem incertas. A explosão causou a morte de mais de 100 pessoas, o governador da praça, o médico, três padres e três mestres. Foi um desastre de grandes proporções que marcou profundamente a história da fortaleza.

A fortaleza está em obras de consolidação e restauro do perímetro abaluartado exterior e da cerca islâmica e medieval interior desde 2018.

Esta Volta a Portugal continua...

 
 
Volta a Portugal: Festas do Povo - Campo Maior
Festas do Povo - Campo Maior

Durante sete dias percorri cerca de 1.600 quilómetros. Fiz aquilo a que eu chamei uma

“Volta a Portugal”. Sete dias intensos, que foram muito mais do que somar quilómetros no conta-quilómetros do carro. Foi ver o país desfilar pela janela, numa rotação de paisagens, gentes e aromas. Foi uma linha que se foi desenhando ao longo do asfalto, que foi ganhando espessura e emoção através da geografia de um território que merece ser percorrido com calma.

Quando decidi fazer esta “Volta a Portugal” só tinha duas coisas delineadas: queria ir às Festas do Povo que, embora já conhecesse Campo Maior, nunca tinha assistido e que não aconteciam desde 2015; e, obviamente, queria regressar à serra da Lousã que eu adoro e onde volto sempre que posso. O resto da viagem, foi um bocado “ao sabor do vento”, do improviso e das localidades que o GPS me ia mostrando “ali à frente”.

Das serras verdes e frescas do Minho, às quentes planícies douradas e infinitas do Alentejo, esta viagem foi um misto de alinhar de memórias e o sobressalto de partir à descoberta de novos horizontes. Sem pressa, e sem me guiar por um mapa rígido, atravessei vários distritos e dezenas de municípios. Regressei a lugares que já trazia gravados no coração e na retina como quem procura aquele abraço de conforto, mas foi a folha em branco do improviso, o desacelerar numa curva desconhecida, o desvio que não estava previsto, ou deixar que a luz de um final de tarde decidisse onde terminava o dia, que fizeram com que esta aventura fosse ganhando vida.

Este trabalho, mais do que um roteiro geográfico, é a cartografia de uma parte do país. É uma viagem feita de estrada, descobertas espontâneas e de paisagens magníficas. O caminho acabou por se tornar o próprio destino, mostrando como este pedaço de terra à beira-mar plantado consegue ser tão vasto e incrivelmente diverso e belo. Uma viagem para me reapaixonar por Portugal a cada quilómetro, a cada recta sem fim, a curva da estrada.

Há viagens que começam muito antes de se pôr o carro em movimento. Começam no desejo de matar saudades, rever alguém, numa conversa há muito adiada ou na vontade de regressar a uma paisagem que já conhecemos, mas que nunca se esgota.

A minha Volta a Portugal começou em Paredes de Coura, onde fui visitar uns amigos que não via há algum tempo. A ocasião coincidiu com as Festas do Concelho, e foi entre reencontros, conversas demoradas e o ambiente festivo da vila que dei início a uma viagem de sete dias e cerca de 1.600 quilómetros. Foram sete dias onde revisitei alguns destinos, onde reencontrei lugares marcantes e onde o improviso do momento também teve uma parte importante no traçado desta viagem.

Paredes de Coura, à semelhança de outras localidades por onde passei, merecia, por si só, um texto inteiro. É uma terra de montanhas verdes, rios, aldeias e recantos onde a paisagem pede tempo. Onde, também eu, quando precisei, encontrei o meu tempo e o meu lugar. No entanto, nesta viagem, não era ainda o destino final: era o ponto de partida. O lugar onde a estrada começou a desenhar-se. Certamente, irei voltar a Paredes de Coura que conheço desde criança, e talvez aí possa surgir o merecido trabalho para o blog.

Quando saí de Paredes de Coura não tinha um destino ou um rumo certo. Só uma certeza, tinha que ir para sul. Já estava na estrada quando me surgiu a ideia de revisitar um local de grande beleza e que ficava mesmo pertinho da auto-estrada, antes de chegar a Viana do Castelo: a Lagoa de Esturranha.


Volta a Portugal: Lagoa de Esturranha
Lagoa de Esturranha

Lagoa de Esturranha: recanto de natureza

Depois de deixar Paredes de Coura, a viagem conduziu-me até este recanto de água translucida e natureza, onde o silêncio assume uma presença quase física. Já conhecia o lugar, que já teve o seu Hot Spot no blog Linha de Terra [ver aqui], e a lagoa surgiu como uma primeira pausa do percurso - um momento de descanso e de reflexão onde deixei para trás a dimensão familiar da viagem e comecei, de facto, a entrar na aventura de viajar e no território da descoberta.

Há lugares que impressionam pela grandiosidade. Outros conquistam-nos pela forma discreta como se revelam. A Lagoa de Esturranha pertence a esta segunda categoria: não exige pressa, nem grandes expectativas. Pede apenas que se abrande, que se observe a envolvente e que se deixe a paisagem ocupar o seu espaço. A nossa mente (e a alma) agradece. É um momento de descarga, de entrega e de grande leveza proporcionado pelo rio Âncora.


Quedas de Fervença: ao ritmo da água

Volta a Portugal: Quedas de Fervença
Quedas de Fervença

Depois da Lagoa de Esturranha, segui estrada fora até às imediações de Santo Tirso. Um desvio que me levou até às Quedas de Fervença, um daqueles lugares onde a água dita o ritmo. As Quedas de Fervença e o rio Leça, que corre desde o Monte de Santa Luzia até ao Atlântico, funcionam como mais um ponto de contacto com a Natureza. Mais um momento para desacelerar e de entrega mutua – embora a Natureza nos entregue infinitamente mais a nós do que nós a ela. O verde adensa-se, o arvoredo cerrado filtra os raios solares, o ar torna-se mais fresco e o som da água impõe-se como pano de fundo a cada passo. Aqui, água e pedra ganham protagonismo, a natureza não se limita a ser cenário. É presença. O rio Leça cai, monte abaixo, deslizando sobre grandes blocos graníticos e, ao longo dos tempos, foi talhando o seu leito em patamares, criando pequenos espelhos de água e poços refrescantes que convidam a uma pausa. O tempo parece parar.


O leitão como pausa obrigatória

Apesar da beleza e da frescura do local, é necessário regressar à estrada e aproveitar para ganhar uns quilómetros. Depois de mais um contanto com a Natureza nas Quedas de Fervença, a viagem seguia o seu curso rumo a sul, mas era impossível ignorar a oportunidade de fazer uma pausa gastronómica num dos lugares mais emblemáticos de Portugal para comer leitão.

Ao passar pela Mealhada, terra onde o leitão se tornou quase sinónimo de identidade, a pausa era inevitável. Diz-se, não sem razão, que uma viagem sabe melhor com boa comida. E há algo de quase ritual na experiência de entrar num restaurante da Mealhada, ver o leitão a sair do forno, com a pele estaladiça e o interior suculento, e perceber que aquele momento vai ficar registado na memória da viagem tanto quanto qualquer paisagem.



Volta a Portugal: Cabril do Ceira
Cabril do Ceira

Cabril do Ceira: o eterno regresso

Depois da Mealhada, havia um destino que era quase inevitável. O Cabril do Ceira, local emblemático para este blog e para mim (onde já estive diversas vezes e onde gosto de regressar sempre que posso). O Cabril do Ceira, em Serpins, tem um significado especial para o blog, pois foi aqui que tudo começou [ver aqui] – o primeiro texto publicado, há mais de sete anos, foi dedicado a este recanto onde a água, a rocha e a floresta se encontram de forma quase perfeita. Um local de rara beleza, onde a Natureza nos brinda com um cenário natural surpreendente. Este (ainda) é um dos segredos mais bem guardados e mais impressionantes com que a Natureza nos brinda em território nacional.

Regressar ao Cabril do Ceira foi, assim, mais do que uma simples paragem no percurso. Foi um momento de retorno às origens, de revisitar o lugar que marcou o início de uma jornada de escrita, de comunhão com a Natureza e de descoberta de Portugal.

O Cabril do Ceira é um daqueles lugares onde tudo parece ter sido desenhada com todo o cuidado. O rio Ceira, que serpenteia a serra, encontra aqui um dos seus trechos mais marcantes. A sua água atravessa um estreito desfiladeiro que foi sendo esculpido, ao longo dos tempos, em impressionantes paredes de xisto e quartzo, criando aqui um lugar de rara beleza e tranquilidade onde apetece nadar.


Vila da Lousã: a porta de entrada da serra

Volta a Portugal: Serra da Lousã
Serra da Lousã

Depois do Cabril do Ceira, era inevitável outro regresso: a Lousã, a vila e a serra. A vila da Lousã é um desses lugares que parecem existir em equilíbrio entre a vida quotidiana e a presença iminente da Natureza. Vila e serra co-existem (quase) em plena harmonia. Complementam-se. Para mim, uma só faz sentido com a outra e ambas parecem comungar de um bem maior: preservar o meio ambiente e a Natureza. A vila não é apenas uma paragem no mapa, é a porta de entrada para um dos territórios mais marcantes do centro do país (e para mim): a serra da Lousã.

Na vila, o seu centro histórico e as suas ruas tradicionais são, por si só, uma experiência a não perder. No coração da vila, entre antigas casas senhoriais e solares brasonados, há um rico património para conhecer a pé: o Palácio dos Salazares, um imponente palacete do século XVIII convertido em unidade hoteleira; o edifício dos Paços do Concelho; a capela da Misericórdia e a matriz da vila, cuja origem remonta, provavelmente, à Idade Média. Há ainda o Ecomuseu da Serra da Lousã, um espaço fundamental para se compreender a identidade deste maravilhoso território. Com tempo, antes de se embrenhar na plenitude da serra, dê um salto ao Miradouro de Vale de Nogueira, um dos melhores lugares para observar a envolvente da vila e perceber a relação entre o espaço urbano e a serra.



Volta a Portugal: Talasnal
Talasnal

Talasnal: uma paragem nas Aldeias do Xisto

A Serra da Lousã é um dos locais onde regresso muitas vezes. Não é apenas um destino de viagem; é um lugar onde me sinto bem, que me preenche e onde me conecto com a Natureza de uma forma que poucos outros lugares conseguem.

Depois de uma paragem na vila era obrigatório “ir à serra”. Desta vez, decidi atravessar a serra da Lousã, não pela nacional 236 (que passa nas imediações do Castelo da Lousã, da Praia Fluvial da Senhora da Piedade, da aldeia de Cerdeira e pela aldeia do Candal, onde estive na minha última visita à Lousã), mas pelo seu interior, pela estrada florestal.

Depois da vila, a estrada sobe e desce, contorna encostas e atravessa vales, até penetrar no coração da serra e entrar no território das Aldeias do Xisto. São lugares que conheço bem, que já percorri em diferentes estações do ano e sob diferentes luzes. Mas aqui há sempre algo de novo a descobrir, mesmo nos caminhos que já parecem familiares. Desta vez, a paragem foi no Talasnal, uma das aldeias mais emblemáticas da serra da Lousã e da rede das Aldeias do Xisto. Esta seria apenas a primeira das Aldeias do Xisto desta viagem.

A primeira vez que fui à aldeia do Talasnal, foi há tanto tempo que já lhe perdi a conta. A estrada para lá chegar ainda era em terra batida… O Talasnal é um desses lugares onde o tempo parece ter abrandado, onde as casas de xisto se aninham na encosta e onde as ruas estreitas convidam a um passeio sem pressas. A aldeia, com origens no século XVII, parece saída de um conto de fadas. O casario e o chão das suas ruas, em pedra de xisto, funde-se com a serra e com a floresta. Muitas das suas casas foram restauradas para turismo rural, mas mantiveram a arquitectura tradicional.

Visitar o Talasnal é fazer uma viagem ao passado, recuar ao tempo dos nossos avós. É o contacto com a Natureza, onde a luxuriante vegetação à sua volta serve de abrigo à fauna local, sendo relativamente comum avistar veados, corços e javalis nas redondezas da aldeia.



Volta a Portugal: Baloiço de Trevim - Serra da Lousã
Baloiço de Trevim - Serra da Lousã

Baloiço de Trevim: no ponto mais alto da serra

Depois do Talasnal, a estrada continua a subir até ao Alto de Trevim, o ponto mais alto da Serra da Lousã, a cerca de 1 200 metros de altitude. É aqui que se encontra o Baloiço de Trevim, uma das atrações mais icónicas da região e, provavelmente, o baloiço mais famoso de Portugal. Também o Baloiço de Trevim já mereceu um Hot Spot no blog Linha de Terra [ver aqui].

O baloiço foi construído em 2016, no âmbito do projeto "Isto é Lousã", e tornou-se rapidamente um ponto de passagem quase obrigatório para quem visita a serra. Do Alto do Trevim, a paisagem abre-se em todas as direções. Em dias de boa visibilidade, diz-se que é possível avistar o Oceano Atlântico, as serras da Estrela e da Gardunha, e até Marvão, no Alto Alentejo.


Do planeamento ao improviso: o verdadeiro espírito da aventura

Até ao momento, a viagem tinha seguido um rumo mais ou menos definido. Na minha cabeça, havia uma intenção clara: passar por Paredes de Coura, explorar as Quedas de Fervença, regressar ao Cabril do Ceira e à serra da Lousã. Depois, só Campo Maior, lá em baixo, no Alentejo, fazia parte do meu mapa mental.

A partir do Baloiço de Trevim a viagem mudou de natureza e entrou definitivamente no território do improviso. Daqui para a frente, quase nada estava pensado. Não havia rota definida, não havia paragens obrigatórias, não havia um plano. O que havia, era uma vontade de deixar a estrada falar, de seguir o instinto e de permitir que o improviso ditasse o rumo.


Volta a Portugal: Passadiços da Ribeira das Quelhas
Passadiços da Ribeira das Quelhas

Passadiços da Ribeira das Quelhas: a subida ao céu

Volta a Portugal: Passadiços da Ribeira das Quelhas
Passadiços da Ribeira das Quelhas

Depois de chegar ao topo da serra da Lousã, só havia um caminho a seguir: descer a encosta do outro lado, em direcção a Castanheira de Pera. O GPS indicou a direção da Ribeira das Quelhas, junto à aldeia do Coentral Grande. E foi assim que cheguei a um dos percursos mais desafiadores e impressionantes da Serra da Lousã: os Passadiços da Ribeira das Quelhas.

Havia algum tempo que tinha estes Passadiços na minha lista, mas poucas vezes tinha tido oportunidade de passar a serra para este lado. Agora era o momento certo. Estava perto e tinha tempo.

Os Passadiços estendem-se por aproximadamente 1.200 metros ao longo da margem direita da Ribeira das Quelhas, acompanhando o curso de água que desce entre escarpas de xisto desde o alto da encosta, a cerca de 1.100 metros de altitude. Embora seja um percurso curto, a sua beleza natural é enorme. A envolvente natural é de uma beleza agreste e selvagem. A ribeira desce entre fragas de xisto e granito, criando poços naturais, pequenas cascatas e lagoas abrigadas entre as rochas. À medida que se sobe, a paisagem abre-se e oferece vistas deslumbrantes sobre a serra.

Os Passadiços foram construídos para permitir atravessar um desfiladeiro que antes era inacessível a pé. Ao longo da subida existem alguns miradouros e bancos para que possa recuperar o fôlego. Apesar de ser um trajecto curto, a dificuldade é alguma; o percurso é uma subida constante e bastante íngreme, sempre através de uma escadaria de madeira. Subir os Passadiços da Ribeira das Quelhas é como subir ao céu; faz-nos pensar duas vezes só de olhar. Subir e descer os Passadiços da Ribeira das Quelhas requer uma boa gestão do esforço físico e (muito) fôlego.

Cada um dos seus degraus é um passo para chegar mais alto. Cada lanço de escadas requer uma pausa. Cada pausa é uma respiração profunda. Há quem diga que são “mais de mil” degraus. Há quem fale em 1.096 ou em 1.600. Eu contei-os e, se não me enganei, são 1.460 degraus que é preciso subir e depois descer… Um esforço sempre compensado pela beleza da paisagem e pela ideia de superação.



Volta a Portugal: Castanheira de Pera - Praia das Rocas
Castanheira de Pera - Praia das Rocas

Castanheira de Pera: entre a serra e a água

Depois dos Passadiços, com as pernas ainda a sentir os 1.460 degraus, segui até ao centro de Castanheira de Pera para recuperar as forças. Castanheira de Pera é uma vila pequena mas com uma história rica e uma relação íntima com a água e a serra.

A história de Castanheira de Pera está intimamente ligada ao aproveitamento dos recursos naturais, especialmente a neve e o gelo. Um dos marcos históricos mais curiosos do concelho são os poços de neve, testemunhos da antiga atividade dos neveiros reais. Daqui saía o gelo que abastecia a Corte e alguns cafés de Lisboa para o consumo em sorvetes ou refrescos. Durante o século XVIII foram construídos os poços da neve onde ia sendo despejada a neve e calcada com maços de madeira e coberta com palha. A neve conservava-se até ao Verão, altura em que era cortada em grandes blocos e era transportada em carroças até ao porto da Barquinha, descendo o Tejo até ao Terreiro do Paço.

No coração da vila, a Praia das Rocas (aberta de Junho a Setembro) é, sem dúvida, a principal atração turística de Castanheira de Pera. Trata-se de uma praia artificial com ondas, que aproveita as águas límpidas da ribeira de Pera. A praia foi construída num lago bem no centro da vila formando um local de grande encanto onde palmeiras tropicais convivem harmoniosamente com a serra da Lousã que espreita lá do alto. O complexo destaca-se por acolher a maior piscina de ondas artificiais do país, proporcionando momentos de diversão e relaxamento.



Volta a Portugal: Pedrógão Pequeno
Pedrógão Pequeno

Pedrógão Pequeno: (mais) uma paragem nas Aldeias do Xisto

Volta a Portugal: Matriz de Pedrógão Pequeno
Matriz de Pedrógão Pequeno

Depois de descansar em Castanheira de Pera, segui até Pedrógão Pequeno, uma das aldeias mais emblemáticas da Rede das Aldeias do Xisto. O caminho entre os dois lugares é curto – cerca de 20 a 25 quilómetros –, mas o suficiente para mudar completamente a paisagem. A estrada desce da serra em direção ao vale do rio Zêzere, atravessando zonas de floresta densa, onde o xisto e o granito marcam a paisagem. Há curvas, há declives, há momentos em que a estrada parece abraçar o rio antes de se afastar novamente.

Pedrógão Pequeno, junto à barragem do Cabril, é uma aldeia que se destaca dentro da rede das Aldeias do Xisto. Ao contrário de muitas outras aldeias da rede onde o xisto aparece à vista, aqui, embora seja o material de construção da maioria das suas casas, o xisto esconde-se por baixo dos rebocos das casas caiadas de branco.

A povoação, mesmo ao lado da N2, é relativamente pequena, mas guarda muito que ver. Destaque para a sua igreja matriz, igreja de São João Baptista, a capela da Misericórdia, o pelourinho e nas imediações, lá no alto, o santuário de Nossa Senhora da Confiança com o seu miradouro e, lá no fundo, no Zêzere, a ponte filipina, do século XVII e classificada como monumento nacional.

Esta Volta Portugal continua…



 
 
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