- João Pais
- 10 de mai.
- 15 min de leitura

Drave é um dos lugares mais míticos e, provavelmente, uma das aldeias mais isoladas de Portugal. Encravada na serra da Freita, no concelho de Arouca, como outros destinos que tenho vindo a divulgar, também não aparece nos principais roteiros turísticos e é precisamente isso que a torna singular. Uma aldeia desabitada, acessível apenas a pé, preservada quase intacta pelo tempo e pela distância. Assim é Drave, a Aldeia Mágica.
Pela minha experiência, sei que existem alguns lugares que nos transmitem uma força e uma energia difícil de nomear. Não sei se é a energia do próprio sítio ou algo que nós próprios lhe emprestamos — provavelmente as duas coisas. É uma sensação que não se explica, vive-se. Sente-se in loco, com espírito aberto e sem pressas.
Já tinha ouvido falar da “magia” que se sentia nesta aldeia desabitada. Quando fui a Drave pela primeira vez, talvez há dez ou doze anos, senti exactamente isso: uma paz e uma leveza (apesar da caminhada para lá chegar) que poucos lugares me deram. A zona é maravilhosa, o percurso deslumbrante, a aldeia surpreendentemente bela. Algo ali me puxou — e continua a puxar. Normalmente, vou a Drave duas vezes por ano. É a minha peregrinação.
Drave é uma aldeia sem infra-estruturas que parou num tempo longínquo e onde o tempo não passa. Se está cansado do barulho do quotidiano, da corrida do dia-a-dia, farto dos seus vizinhos, Drave é o local ideal para si — pelo menos durante uma tarde —, para se desligar do corre-corre diário, sentir a Natureza e reconectar-se consigo. Desabitada há mais de duas décadas, Drave deixou de ser uma aldeia onde a vida era dura e difícil, para se tornar num paraíso para caminhantes e amantes da Natureza. Drave tornou-se “mágica”.

Localização de Drave
Drave está encaixada num vale entre as serras da Freita, da Arada e de São Macário, em pleno coração do Arouca Geopark, perto dos limites do município de Arouca com o concelho de São Pedro do Sul. A aldeia mais próxima, Regoufe, fica a quatro quilómetros, e é de lá que parte o trilho que nos conduz até ela.
Drave é uma aldeia onde não há monumentos, museus, ou palacetes antigos. Toda a aldeia é um museu a céu aberto. Aqui há Natureza, tradição e história. Drave é um lugar onde as paisagens naturais são um regalo para a vista e para a alma de todos os visitantes que se atrevam a percorrer o caminho até lá. Um verdadeiro deleite para os amantes do turismo de Natureza.

Como chegar a Drave
A Drave não se chega, Drave conquista-se passo a passo, quilómetro após quilómetro. Aqui não há estradas asfaltadas, nem sinal de GPS que nos deixe na entrada da aldeia. O caminho é, ele próprio, parte da experiência: uma preparação silenciosa para o que vamos encontrar em Drave.
Drave já se encontra perto dos limites do município de Arouca com o vizinho concelho de São Pedro do Sul, pelo que tanto se pode chegar desde Arouca como a partir do território de São Pedro do Sul.
Do lado de Arouca, o “caminho oficial”, devidamente marcado, é o PR14 – A Aldeia Mágica que tem início na aldeia vizinha de Regoufe. São quatro quilómetros de trilho, que se fazem entre a hora e meia e as duas horas de caminhada. O nível de dificuldade é baixo, mas à saída de Regoufe (e, no regresso, à chegada à aldeia) o caminho sobre íngreme e bastante pedregoso para nos testar as pernas. É o preço a pagar…
Do lado de São Pedro do Sul, o acesso faz-se a partir do CM1123 – que liga a estrada do Portal do Inferno, a aldeia de Pena ou o São Macário, à ER326 que nos leva até bem perto de São Pedro do Sul. No entroncamento que dá acesso ao Portal do Inferno, é necessário virar à direita e percorrer cerca de 3.300 metros onde vai encontrar uma bifurcação à direita. A partir daqui, deixamos o CM1123 e é preciso fazer cerca de 3.600 metros num estradão em terra batida. Dependendo do veículo de cada um, e do estado do estradão, há quem deixe o carro logo no início, e há quem o leve até cerca de 600 metros da aldeia… Se tiveres um todo-o-terreno estás com sorte. Mas esta não é a forma certa de se entrar num local como Drave. A caminhada, trilho fora, atravessando a serra, o contacto com a Natureza, o ir sentindo o afastamento e o isolamento fazem parte da experiência e é parte integrante da “magia” do local. Eu opto sempre por fazer o prazeroso PR14 a partir de Regoufe. Podes ler tudo sobre este PR14 aqui.

A geografia do local
Escondida entre as serras, no coração do Arouca Geopark, num vale moldado pela pedra e pela água, onde tudo parece ter sido pensado mais pela Natureza do que pelo homem, a aldeia de Drave surge como aquela peça improvável que falta colocar para terminar o puzzle. Ali, tudo encaixa na perfeição.
Nesta região, como noutras zonas de montanha, as povoações estão bastante dispersas (e quase desertas). A aldeia mais próxima, Regoufe, fica a quatro quilómetros. É de lá parte o PR14, um trilho de paisagem generosa que, apesar do esforço, chega a transmitir uma estranha sensação de paz antes mesmo de se avistar a aldeia.
Drave localiza-se entre os 600 e os 630 metros de altitude, rodeada por cumes bem mais altos (Arada, 1120; Freita 1100; São Macário, 1053), a aldeia está encaixada numa encosta rodeada por montes e vales profundos, numa área onde se cruzam diversas linhas de água e onde o relevo contribui para o seu carácter escondido. Ao redor da aldeia há socalcos feitos durante gerações à força de braços e antigos campos agrícolas que, noutros tempos, foram o sustento dos seus habitantes.

Toda a zona é rica em granito e xisto, materiais que estão presentes na paisagem durante a caminhada até à aldeia e, depois, nas próprias casas de Drave. Aqui, a terra é bastante fértil devido às inúmeras ribeiras que descem encosta abaixo. A ribeira de Palhais, que passa ao fundo da aldeia, é um elemento estruturante da paisagem e o fio condutor de todo o vale. Tudo se desenvolve à volta da ribeira. Este pequeno curso de água percorre a montanha desenhando o território, esculpindo pequenas cascatas e cirando lagoas tranquilas ao longo do seu caminho. Mais do que um acidente geográfico, a ribeira é a espinha dorsal do lugar. Ao longo de milhares de anos foi moldando o local, criando zonas férteis e orientando o próprio crescimento da aldeia. A ribeira de Palhais acompanhou a vida de quem aqui viveu. Hoje, o murmúrio constante das suas águas preenche o silêncio de Drave, ocupando o espaço que o ruído humano há muito deixou vazio.
O topónimo “Drave”
A origem do topónimo “Drave” permanece incerta, não existindo uma explicação consensual. É possível que o nome tenha uma origem pré-latina ou celta e que, muito provavelmente, derive de um termo relacionado a hidrografia, com água corrente, cursos fluviais ou com antigos nomes de rios.
O mais provável é que o nome tenha nascido mesmo antes da aldeia, como nome do território ligado à água e não da povoação em si. Factor que se justificaria dado que a aldeia está inserida num sistema de ribeiras de montanha onde o território é estruturado pela água. Aliás, deve ser por isso que algumas pessoas definem o local como a aldeia da Drave.
O topónimo “Drave” também poderá ter ligação a antigos nomes pessoais como Dravius ou Dravinius (nomes provavelmente da Baixa Idade Média, com influências de culturas eslavas ou latinas).

A aldeia
As construções em pedra escura (xisto) ainda demonstram bem a arquitectura tradicional das comunidades serranas. As construções estão harmoniosamente dispersas pelo relevo da encosta, por onde corre a ribeira de Palhais, como que parecendo que ali foram estrategicamente dispostas. Há uma coerência e uma proporção quase natural nas construções e na sua disposição. Todo o conjunto (encosta, ribeira e aldeia) forma um quadro muito agradável.
Admire a harmonia da aldeia ainda antes de descer para a ponte sobre a ribeira. Atravesse a pequena ponte de pedra e percorra as ruas empedradas e desertas de Drave. Espreite as casas em ruínas (mas com cuidado), admire as que já estão arranjadas pelos escuteiros, visite cada recanto da aldeia. Vale a pena deambular pelas suas ruas de “calçada” bastante irregular, perceber a arquitectura tradicional portuguesa e de como era feita a construção destas casas. A aldeia não deve ter tido mais do que duas dezenas de construções entre casas de habitação, currais, palheiros e adegas.

Para além do núcleo de casas de xisto com telhados de lousa e de algumas eiras e espigueiros comunitários, destaca-se a pequena capela de Nossa Senhora da Saúde caiada de branco, assim como o Solar dos Martins (convertido em quartel-general da IV Secção do Corpo Nacional de Escutas). No centro da aldeia ergue-se a capela de Nossa Senhora da Saúde, cuja construção remontará a meados do século XIX, provavelmente do ano 1851, período em que Drave terá atingido a sua maior vitalidade e uma comunidade estável, organizada, de alguma dimensão.
Procure absorver a paisagem circundante e as suas elevações. A paisagem e a Natureza também fazem parte da aldeia. Ao fundo da aldeia, a ribeira de Palhais completa o quadro bucólico com zonas refrescantes de grande beleza, pequenas cascatas e lagoas de água límpida que refletem a luz e o azul do céu. Durante os meses quentes de Verão esta zona é bastante procurada pelos caminhantes que aproveitam as águas cristalinas (e frias) da ribeira de Palhais para retemperar energias antes do regresso.

A história de Drave
Drave foi, durante séculos, uma pequena comunidade rural isolada, uma aldeia típica de montanha com uma actividade agrícola de subsistência. Aqui, as suas gentes viviam da agricultura e da pastorícia. Entre os seus habitantes, destaca-se a família Martins, presente na aldeia durante várias gerações e que viria a ter um papel primordial na evolução e no crescimento de Drave.
Vestígios arqueológicos como sepulturas Pré-Históricas, castros e o aparecimento de uma pulseira de provável origem Celta encontrada nas proximidades de Drave (em Regoufe), confirmam a presença humana em Drave muito antes da Idade Média. A presença abundante de água e a fertilidade dos solos que permitiam a subsistência terão sido os principais motivos para a fixação do homem neste local.
Em Drave, cultivava-se milho, feijão, centeio, batata, hortícolas e forragem para os animais. O centeio e o milho destinavam-se ao fabrico do pão; o folhedo e a palha do centeio serviam para a alimentação e cama dos animais. A vinha e a apicultura também eram actividades importantes para a aldeia.
O documento mais antigo com referências a Drave remonta ao século XIII e às Inquirições dos Reguengos das Beiras, realizadas durante o reinado de D. Dinis (1279-1325).
Posteriormente, o Cadastro da População do Reino, ordenado por D. João III, em 1527, registava as povoações de Drave, Regoufe e Covelo de Paivó, na freguesia de São Martinho das Moitas, concelho de Lafões e Sul. Nessa altura, Drave era um núcleo muito pequeno que contava com oito pessoas.
No século XVIII, o casal Maria e Francisco Martins instalam-se em Drave. A partir daqui, a família Martins torna-se importante e dominante na aldeia durante várias gerações, tendo tido um papel crucial na manutenção do lugar e no desenvolvimento da aldeia. Apesar da família Martins ter sido dominante, Drave não se fez só de uma família, e os habitantes da aldeia não se limitavam aos seus elementos. A existência de minas ali perto e a possibilidade de adquirir terra própria foram trazendo novas gentes. O lugar foi crescendo, as casas aumentando e os terrenos de cultivo foram sendo conquistados à serra.
No seu tempo áureo, Drave terá tido mais de 100 habitantes, mas o encerramento das minas, o isolamento e as dificuldades da vida na serra foram levando ao progressivo abandono dos seus habitantes. O Mundo ficava cada vez mais afastado de Drave, os caminhos ficavam “mais compridos” e a vida tornava-se cada vez mais difícil.
No início da década de 90 do século passado, já apenas residiam na aldeia dois casais. Mas Drave não morreu, ficou a sua história, as suas casas, as suas lendas e a Natureza (quase) intocada. Drave continua a ser usada pelos escuteiros que adoptaram a aldeia. As construções da aldeia mantém-se preservadas e estão a ser recuperadas mantendo a sua arquitectura tradicional e a identidade da aldeia.
Existem outros exemplos de localidades marcadas pelo abandono ou pelo isolamento em Portugal, mas Drave tornou-se uma referência precisamente por juntar elementos como o difícil acesso, a ausência de infra-estruturas, o facto de estar desabitada e o perfeito enquadramento na Natureza. Hoje, devido ao seu encanto e ao contacto com a Natureza, a aldeia tem grande procura e tem mais movimento do que quando era habitada.
Os Martins de Drave
Para além de todos os adjectivos que possam definir e classificar Drave, Drave é também um lugar de memória familiar. A aldeia foi berço da família Martins, os Martins de Drave, uma família numerosa e de origem bastante antiga. A família Martins é absolutamente central na história de Drave.
Há registos documentais confirmados da presença da família Martins em Drave desde o ano 1700. A genealogia conhecida recua a Francisco Martins I (século XVIII), de quem pouco se sabe.
Existe também referência a um casal Francisco e Maria Martins, já estabelecido na aldeia no século XVIII, consolidando a presença da família em Drave. Sobre Francisco Martins sabe-se que teve dez filhos, que foi o grande impulsionador da aldeia e que teve um papel crucial na manutenção do lugar e no desenvolvimento de Drave, ajudando a construir grande parte da aldeia.
Durante o século XIX, Manuel Martins (filho de Francisco) manda abrir um caminho de carro (de bois) que possibilitasse ligar Drave à localidade mais próxima (Regoufe) e com o território a sul da aldeia. Ainda hoje, é possível observar, gravado nas lajes de pedra, o sulco deixado pelos rodados dos carros de bois que, durante muitos anos, percorreram aquele caminho – cicatrizes de outros tempos que ficaram gravadas na pedra. É também por esta altura que Manuel Martins constrói o Solar dos Martins, a casa da adega e a capela de Nossa Senhora da Saúde (mandada edificar em 1851).
Já no século XX (1946), o padre João Nepomuceno de Almeida Martins promove o primeiro encontro dos Martins de Drave. A reunião familiar, na altura, juntou cerca de 600 descendentes na aldeia.
Durante cerca de 300 anos a família Martins manteve presença contínua em Drave, o que corresponde, aproximadamente, de oito a dez gerações.
Ao longo das várias gerações a família Martins marcou profundamente a vida na aldeia, tendo tido um papel crucial na construção das casas, no crescimento e desenvolvimento da aldeia e na sua organização social.
Com o declínio económico e o isolamento da aldeia a família começou a dispersar-se por várias regiões como: Arouca, São Pedro do Sul, Vouzela, Viseu, Porto e Lisboa. Alguns dos seus elementos partiram para o Brasil e para o continente africano.
No início dos anos 90 apenas existiam quatro habitantes na aldeia. Em 1991, dá-se a saída de um dos casais (António e Albertina Martins), tendo ficado a residir na aldeia o senhor Joaquim e a dona Aninhas. A dona Aninhas faleceu em 1999 e o senhor Joaquim, já com uma idade avançada, no ano 2000, viu-se forçado a abandonar a aldeia e ir viver para Regoufe onde viria a falecer nos inícios de 2005. O senhor Joaquim Martins foi o último habitante de Drave.
Apesar da saída da aldeia, a família mantém fortes ligações com Drave fazendo reuniões familiares na aldeia, de dois em dois anos, a 15 de Agosto, dia da festa em hora à Senhora da Saúde.

A segunda vida de Drave
Drave está desabitada, mas nunca foi verdadeiramente abandonada. Desde os anos 90, os escuteiros adoptaram a aldeia e deram-lhe uma segunda vida – mais silenciosa, mas igualmente real. Não estranhe, por isso, encontrá-los por lá, especialmente ao fim de semana, já que há equipas que zelam regularmente pelo espaço e que o mantêm vivo.
Apesar de já não ter habitantes permanentes há quase 30 anos, Drave ganhou uma segunda vida, com a recuperação de casas, com a manutenção do espaço e, acima de tudo, com a presença humana de forma regular. Efectivamente, apesar de desabitada, Drave nunca teve tanta vida como hoje. E é, precisamente, a busca desse isolamento e do contacto com a Natureza no seu estado puro que traz muita gente a Drave.
A ligação dos escuteiros com Drave remonta aos anos 90 do século passado quando começaram a usar a aldeia como espaço de formação e de experiência comunitária. Em 1992, realizam a actividade “Rumos da Consciência” e, em 1993, “Rumos do Homem Novo”. Em 2001, já com a aldeia desabitada, realiza-se o “Rover 2001”, actividade que dá início à reconstrução da aldeia. Em 2003 o Corpo Nacional de Escutas abriu em Drave a sua Base Nacional da IV Secção, o Drave Scout Centre, um centro para caminheiros (escuteiros entre os 18 e os 22 anos).
Ao longo destes anos os escuteiros adquiriram algumas casas e alguns terrenos na aldeia e têm contribuído para a manutenção e recuperação de alguns edifícios bem como do espaço envolvente, garantindo que o local se mantém cuidado e fiel à sua traça original.
O Drave Scout Centre recebe, anualmente, milhares de caminheiros portugueses e estrangeiros, que colaboram na reconstrução e manutenção da aldeia. O Drave Scout Centre é já uma referência mundial e foi distinguido, em 2012, com o selo SCENES de excelência (Scout Centres of Excellence for Nature and Environment – Centros Escutistas de Excelência para a Natureza e o Ambiente), o único reconhecimento deste tipo na Península Ibérica, num total de 13 centros escutistas mundiais.
Lenda ou realidade?
Como qualquer localidade, também Drave tem as suas lendas. Conta-se que Drave, pela sua geografia e pelo difícil acesso, terá, em tempos, servido como abrigo de “bandidos” fugidos à justiça. Esta é uma teoria comum a muitas terras isoladas que têm histórias semelhantes, muitas vezes ligadas a contrabandistas, desertores ou pequenos criminosos.
Efectivamente, na região, parece haver uma tradição oral que faz referência ao facto de Drave ter servido de abrigo a foragidos da lei mas, na realidade, não existe qualquer registo que comprove esta teoria. Uma história que se terá desenvolvido e enraizado mais devido ao isolamento da aldeia do que a factos históricos. O mito cresce onde a história não fala…
Por aqui também se contavam histórias fantasiosas que diziam que na ribeira que atravessa a aldeia, numa cascata de águas cristalinas, fadas se banhavam em noites de luar e que, entre clareiras e árvores de fruto, existem mesas de pedra que ali foram deixadas para um banquete que nunca se realizou. Ou a história da “verdadeira” origem de Drave: D. Francisco, o Primeiro, fugia de perigos e inimigos desconhecidos e embrenhou-se nas serras em busca de paz. Sozinho, construiu as primeiras casas com as pedras que a montanha lhe ofereceu. Mas farto de estar sozinho desceu a Covelo de Paivó, onde se apaixonou por uma rapariga. Quis trazê-la consigo, mas os irmãos da moça tentaram impedi-lo. D. Francisco, mestre no Jogo do Pau (a arte guerreira dos pastores e viajantes), venceu os irmãos da moça e, assim, conquistou a mão da jovem e, com ela, regressou ao vale escondido. Tiveram filhos, trabalharam a terra, e pedra sobre pedra fundaram a aldeia de Drave.
Mais sombria é a “Lenda de Carlitos”, o fantasma de uma criança que assombra a aldeia, com relatos de vozes em agonia. Conta-se que Carlitos era uma criança adotada na aldeia. Um dia, enquanto ajudava o pai, uma árvore caiu-lhe sobre a perna. Devido à falta de assistência médica, o pai foi forçado a amputar a perna, resultando na morte da criança. Diz a lenda que o espírito de Carlitos permanece na aldeia à procura de um corpo. O folclore local refere que ainda se podem ver vestígios do sangue de Carlitos nas pedras junto à ribeira de Palhais e que os escuteiros relatam ouvir vozes infantis em agonia por volta as 15h30, alegadamente a hora que Carlitos morreu...

A “Aldeia Mágica”
Drave pode estar desabitada permanentemente há quase 30 anos, mas é estimada e elogiada por todos aqueles que fazem das caminhadas e dos percursos pedestres uma paixão.
A designação "Aldeia Mágica" nunca foi oficial, mas instalou-se naturalmente no imaginário colectivo e tornou-se, com o tempo, parte da identidade do lugar. O termo terá nascido da soma de muitas coisas – nenhuma delas suficiente sozinha, mas juntas criadoras de algo difícil de nomear. A paisagem preservada, o xisto das casas, o murmúrio da ribeira, o isolamento, o silêncio que parece ter textura – tudo isto contribui para um lugar que escapa às categorias habituais. O resto, esse encanto particular que a palavra "mágica" tenta capturar, só se entende quando se está lá. Uma coisa é certa: Drave é apaixonante e mágica.

Chegue sem pressas, abra os sentidos e deixe que o lugar o surpreenda. Deixe que o canto harmonioso dos pássaros dite o ritmo, que o ar limpo da serra entre fundo nos pulmões. Sinta esta Natureza intocada e deixe-se enfeitiçar pelos encantos de Drave. Estou certo que não vai demorar a perceber porque é que esta aldeia é “mágica”. A magia percebe-se, não se explica.
O sentimento
Drave é um sítio para se sentir! Ir a Drave – porque é disso mesmo que se trata, vai-se a Drave, não se passa por Drave – exige uma caminhada de quatro quilómetros que funciona como ritual de chegada: um afunilamento gradual do ruído até ao silêncio, do ritmo acelerado até à quietude. O caminho não é muito exigente, mas requer algum fôlego e, acima de tudo, vontade de contactar com a Natureza, conhecer outras realidades, interiorizar os nossos pensamentos e sentimentos e ganhar forças. Ir a Drave é uma experiência única, marcada pelo afastamento com o Mundo actual, é intimidade com a natureza e com a paisagem, é um acto de espiritualidade e de recolhimento.
É um lugar onde o mundo moderno não chegou e onde, por isso mesmo, encontramos uma versão mais simples e mais verdadeira de nós próprios. A “magia” de Drave vem precisamente disso: não do que tem, mas do que lhe falta.

Numa das vertentes montanhosas da serra da Freita, no concelho de Arouca, (ainda) há uma pequena aldeia parada num tempo longínquo. Sem electricidade, sem água canalizada, sem rede de comunicações – e sem nenhuma das presas que nos consomem o dia. É um paraíso perdido na montanha que, paradoxalmente, se torna mais vivo quanto mais silencioso está.
Drave mantém-se como um dos lugares mais singulares e pitorescos da serra da Freita, de Arouca e mesmo de Portugal. Drave é uma experiência única. Uma experiência que vai muito para além de visitar e conhecer uma das aldeias mais isoladas de Portugal. É o contacto com a Natureza pura, a contemplação, o silêncio, a interiorização e a meditação.
Drave é um dos meus locais de eleição. Um sítio a que regresso todos os anos e que, cada vez que visito, me devolve qualquer coisa que o quotidiano foi levando. Não sei bem o quê. Mas em Drave percebe-se. A magia não se explica, sente-se.






















