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Venha descobrir Portugal comigo!

  • Foto do escritor: João Pais
    João Pais
  • 10 de jun. de 2024
  • 9 min de leitura
Dia de Portugal

Hoje, dia 10 de Junho, celebra-se o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Portugal é um país maior da história mundial. Ao contrário do que muitos apelam por aí, temos que ter orgulho no nosso passado e na nossa história. Neste "cantinho" repleto de paisagens maravilhosas, com quase 900 anos de história, deveríamos aproveitar a data para olhar para o passado e repensar o futuro. Olhar para o futuro do país, para as futuras gerações, para o futuro dos territórios despovoados, para o nosso património e para o ambiente.

Mas porquê o dia 10 de Junho? E quais são as dez coisas que identificam Portugal?


A primeira referência a 10 de Junho como o dia nacional surge em 1880 por decreto do rei D. Luís I que declara a data como “Dia de Festa Nacional e de Grande Gala” para comemorar, nesse ano, os 300 anos da morte do nosso poeta maior, Luís de Camões que, supõe-se, terá falecido a 10 de Junho de 1580. Com a implantação da República, em 1910, a data passa a ser feriado nacional.

Mais tarde, durante o regime ditatorial do Estado Novo (de 1933 até ao 25 de Abril de 1974), o dia 10 de Junho era celebrado como o “Dia de Camões, de Portugal e da Raça”. A partir de 1963 o dia passa também a prestar homenagem às Forças Armadas Portuguesas, data que era aproveitada pelo Estado Novo para exaltar a guerra no ultramar e o poder colonial, associando Camões e os descobrimentos portugueses às colónias, ao sentimento de uma grande nação espalhada pelo mundo com uma raça e uma língua comum.

A partir de 1978 a data passou a prestar homenagem a Portugal, Camões e às Comunidades Portuguesas.

Normalmente, do programa do Dia de Portugal fazem parte cerimónias oficiais, desfiles militares, entregas de medalhas de mérito a individualidades pelo seu trabalho em nome da nação.

Este dia é ainda considerado como dia da Língua Portuguesa, do cidadão nacional, das Forças Armadas e do Anjo Custódio de Portugal.


E quais são as dez coisas que melhor definem Portugal? Sem qualquer ordem de relevância, escolhi as que me pareceram mais identificativas e marcantes do nosso país, do povo português e da nossa cultura.


Fado

Estilo musical português, elevado a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2011. É difícil encontrar a sua origem, mas há quem defenda a tese que tenha sido desenvolvido a parir de cânticos muçulmanos ou das músicas dos escravos brasileiros que teriam chegado até nós através dos marinheiros. Outra tese, remete para os trovadores medievais cujas canções contêm características que o fado conserva. O Fado de Lisboa tem algumas semelhanças com as cantigas de amigo e o Fado de Coimbra com as cantigas de amor. O Fado só passou a ser reconhecido, nas ruas de Lisboa, em meados do século XIX.

Nos centros urbanos de Lisboa e do Porto, o fado é um fenómeno situado nas zonas mais antigas da cidade, e é cantado em casas típicas, onde a decoração alusiva ao fado está sempre presente – o xaile e a guitarra portuguesa. Os temas mais recorrentes passam pelo amor, o destino, a tragédia e a saudade, daí o seu tom triste e lamentoso. Em Coimbra, a tradição diz que o Fado é tocado e cantado pelos estudantes da universidade desde o século XVI, somente por homens e envergando a capa, que deve estar traçada. Ao contrário do Fados de Lisboa, cantado nas tabernas e casas de fado, o Fado de Coimbra é um fado de serenata, tradicionalmente cantado nas ruas.

A palavra fado deriva do latim fatum, que significa destino.


Galo de Barcelos

A simbologia do galo encontra-se presente na mitologia e em diversas religiões ao longo dos tempos. Encontra-se nas raízes da nossa cultura, inspirada por gregos e romanos. O galo está associado a coisas positivas como a luz e o sol, sendo na tradição cristã associado a Cristo. O galo é símbolo do povo e, devido ao seu canto, está associado à vitória e ao afastamento de bruxas e outros males.

O Galo de Barcelos é uma referência incontornável do artesanato português e um dos símbolos do nosso país. Hoje, é um ícone de Portugal e existe um em quase todas as casas nacionais. Durante o Estado Novo, a construção de uma imagem turística do país levou a que a imagem do Galo (oriundo da olaria de Barcelos) tivesse obtido algum consenso e, a partir das décadas de 50 e 60 o Galo de Barcelos transforma-se no símbolo do turismo nacional e um ícone de identidade da nação.

A lenda do Galo narra a intervenção milagrosa de um galo morto na prova da inocência de um homem erradamente acusado. Em Barcelos, na época medieval, um peregrino a caminho de Santiago de Compostela terá sido acusado de um crime e acabou condenado à forca. Dizendo-se inocente, o peregrino pediu para ser levado até ao juiz. Na casa do juiz, onde decorria um banquete, o homem voltou a afirmar a sua inocência e perante os risos e a incredulidade dos presentes, o peregrino apontou para um galo assado que estava em cima da mesa e disse: “É tão certo eu estar inocente, como certo é esse galo cantar quando me enforcarem”.

Claro que ninguém presente o levou a sério, mas quando o peregrino estava a ser enforcado o galo ergueu-se na mesa e cantou. O juiz, compreendendo o seu erro, correu até à forca para tentar evitar a injustiça, descobrindo que o peregrino se salvara graças a um nó mal feito. O homem foi imediatamente solto e mandado em paz.

Alguns anos mais tarde, o peregrino terá voltado a Barcelos para construir o cruzeiro medieval que faz parte do espólio do Paço dos Condes - o Cruzeiro do Senhor do Galo.

Conta-se que o primeiro galo terá sido feito pelo artesão Domingos Côto.


"Zé Povinho"

O “Zé Povinho”, com o seu gesto de manguito, é uma figura emblemática do imaginário nacional, uma espécie de símbolo do povo português, retratando o homem comum, eternamente explorado e enganado pelos políticos. A personagem surgiu pela primeira vez em 1875 numa caricatura.

O “Zé Povinho” é uma personagem satírica de crítica social criada por Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) e adoptada como personificação do povo português, servindo também para criticar o sistema político e os seus protagonistas. Rapidamente a figura ultrapassou o seu criador e passou a símbolo nacional. A partir dos finais do século XIX ganhou forma tridimensional com as peças de cerâmica da Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha.

Rafael Bordalo Pinheiro foi o mais célebre artista plástico, caricaturista e ilustrador português do século XIX. Foi ainda ceramista, decorador e editor. Com o tempo, o “Zé Povinho” ultrapassou a vida do seu criador e, ainda hoje, continua a ser recriado por outros autores.


Arte Xávega

Esta é uma arte de pesca artesanal apenas praticada em Portugal, nas zonas compreendidas entre Espinho e a Costa da Caparica. Executada com rede de cerco, de forma cónica, e um cabo longo com flutuadores.

A rede é levada para o mar, longe da costa, por uma embarcação (também ela com caracteríticas próprias), ficando uma das pontas do cabo amarrada a um tractor. Os pescadores efetuam o cerco aos cardumes de peixe em alto mar e retornam à praia desenrolando a outra metade do cabo para a sua extremidade ser enrolada a um segundo trator. Depois os tractores puxam a rede para terra.

Outrora as redes eram puxadas à mão, depois passaram e ser puxadas por juntas de bois e, actualmente, essa tarefa é executada com a ajuda de tractores. A palavra xávega provém do termo árabe xábaka, que significa rede.


Vinho do Porto

O Vinho do Porto é um vinho natural e fortificado, produzido exclusivamente na Região Demarcada do Douro e armazenado e envelhecido em caves, em Vila Nova de Gaia. Este vinho ficou conhecido como Vinho do Porto por, no século XVIII, ser exportado a partir desta cidade.

A Região Demarcada do Douro é a mais antiga região demarcada do Mundo, criada em 1756 por D. José I, Marquês de Pombal. A Região foi classificada como Património Mundial da UNESCO em Dezembro de 2001.

A origem da produção do Vinho do Porto é incerta, mas sabe-se que o que torna estes vinhos distintos são as castas utilizadas e as características da zona onde é produzido – os socalcos do Douro. O processo de fabrico destes vinhos, baseia-se na tradição ancestral e na paragem da fermentação do mosto pela adição de aguardente vínica, ao que se segue o seu armazenamento e envelhecimento em caves. Este processo de adição de aguardente vínica já era utilizado na época dos Descobrimentos para se conservar o vinho durante as viagens.


Estilo Manuelino

É um estilo decorativo e escultórico que se desenvolveu no reinado de D. Manuel I (1495-1521), mas o nome só foi adoptado mais tarde, no século XIX. É uma variação portuguesa do gótico, bem como da arte luso-mourisca, ou arte mudéjar. Com os Descobrimentos os navegadores portugueses deram a conhecer ao mundo civilizações longínquas e muitos artistas estrangeiros vieram trabalhar no país trazendo grande riqueza e conhecimento. Desse encontro de culturas terá nascido o Manuelino.

A Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerónimos são dois importantes exemplos deste estilo, mas em todas as obras construídas na época facilmente se descobrem motivos como a esfera armilar, a cruz de Cristo e muitos outros símbolos como ramos e folhagens, cordas torcidas e formas marinhas, minuciosamente esculpidos na pedra.


Azulejos Portugueses

O Azulejo é uma das marcas mais distintivas da cultura portuguesa. A arte da azulejaria havia de criar raízes e tradição em Portugal por influência dos árabes. Os artesãos nacionais pegaram na técnica mourisca, simplificaram-na e adaptaram os padrões ao gosto ocidental. O azulejo tem 500 anos de produção nacional.

A partir dos finais do século XV, a decoração ornamental muçulmana teve um papel importante na arte portuguesa. Por essa altura, o Azulejo sofre um grande desenvolvimento a nível nacional e muitos edifícios e espaços públicos são ornamentados com painéis de Azulejos.

Na segunda metade do século XVII as composições de azulejo deixam de ser repetitivas, passando a ser cheias de dinamismo, de figuras em movimento representadas na tonalidade azul.

A partir do século XIX, o Azulejo deixa de ser quase exclusividade dos palácios e das igrejas e passa a estar presente nas fachadas dos edifícios e, mais tarde, já em pleno século XX, o Azulejo passa a estar presente nas estações de caminho de ferro e de metro. Esta tradição ancestral torna-se ainda mais popular, com a sua utilização como solução decorativa para cozinhas e casas-de-banho.

O Azulejo tem mostrado uma prova de resistência temporal, de inovação e de renovação. A originalidade da utilização do Azulejo Português e o diálogo que estabelece com as outras artes faz dele caso único no mundo.


Filigrana Portuguesa

A Filigrana é um trabalho ornamental, feito de forma artesanal, com fios muito finos e pequenas bolas de metal, soldadas de forma a compor uma forma. De referir que mais nenhuma outra arte de joalharia usa esta técnica de fusão para unir fios de ouro. A Filigrana é uma arte viva e existe, essencialmente, na região norte de Portugal.

A origem da Filigrana remonta ao terceiro milénio antes de Cristo, na Mesopotâmia. Claro que a Filigrana deste tempo tão remoto não era igual à que conhecemos nos dias de hoje, mas a semelhança das técnicas utilizadas não deixa dúvidas. Só durante o domínio dos romanos, durante o século II a.C., começou a existir na Península Ibérica exploração mineira, mas apenas milhares de anos depois, no século VIII d.C., se tem certeza de que a Filigrana estava a ser desenvolvida e produzida em Portugal. Com a chegada de povos Árabes surgiram novos padrões e, pouco a pouco, a Filigrana da Península se começou a diferenciar da Filigrana de outras partes do mundo. A partir do século XVII, a Filigrana Portuguesa já tinha um imaginário próprio e moldes muito diferentes de qualquer outra.


Calçada Portuguesa

A Calçada Portuguesa é um revestimento de piso utilizado, principalmente, na pavimentação de espaços públicos como passeios, praças, pátios e zonas pedonais. Normalmente, usam-se pedras de calcário (por serem mais fáceis de trabalhar) branco e preto assentes no chão, como uma espécie de puzzle, que formam padrões, mosaicos e uma série de motivos decorativos aproveitando o contraste das duas cores.

Apesar dos pavimentos calcetados terem surgido em Portugal no século XVI, a Calçada Portuguesa, tal como a conhecemos hoje, começou a ser utilizada após a reconstrução da cidade de Lisboa, depois do terramoto de 1755.

Esta arte tornou-se popular e foi levada para o Brasil e para as colónias portuguesas existentes na altura. Mais tarde, a Calçada Portuguesa foi adoptada em grandes cidade do Mundo.


Saudade

Palavra portuguesa de difícil tradução, tendo sido considerada (em 2004) por uma empresa britânica uma das dez mais difíceis palavras para se traduzir.

A palavra Saudade tenta transmitir um sentimento de nostalgia causado pela ausência de algo, de alguém ou de um lugar. A palavra pode também ser usada para manifestar a vontade de reviver experiências, situações ou momentos já passados.

Derivada do Latim solitas, é uma das palavras mais presentes no Fado, na poesia e na música popular. É uma palavra recorrente na língua portuguesa e indissociável da nossa cultura.



  • Foto do escritor: João Pais
    João Pais
  • 23 de mai. de 2024
  • 9 min de leitura
Vilarinho de Negrões, a aldeia que parece flutuar
Vilarinho de Negrões, a aldeia que parece flutuar

A aldeia de Vilarinho de Negrões é uma pequena pérola preciosa na grande diversidade de maravilhosas aldeias transmontanas. Atrevo-me mesmo a dizer, que esta é uma das mais belas aldeias de Portugal.

A beleza desta pequena aldeia está na sua ruralidade, na simplicidade e simpatia dos seus habitantes e na sua localização. Vilarinho de Negrões está implantada num outeiro que foi transformado numa pequena península aquando da construção da barragem de Pisões e com a consequente subida das águas da albufeira do Alto Rabagão, criando aqui um local de grande beleza. Efectivamente, quem avista a aldeia, vindo pela estrada que contorna a margem sul da albufeira, fica com a sensação de que a aldeia parece flutuar sobre as águas.


Com a subida das águas da Albufeira do Alto Rabagão a aldeia parece uma ilha
Com a subida das águas da Albufeira do Alto Rabagão a aldeia parece uma ilha

Esta não foi a minha primeira visita a Vilarinho de Negrões. Já lá tinha estado há uns bons anos, mas a seca daquele ano fizera com que o nível da água na albufeira estivesse muito baixo, havendo uma larga auréola de areia a toda a volta da aldeia. Como diz o povo, não há fome (neste caso sede) que não dê em fatura e, agora, que tinha ouvido dizer que a albufeira estava bem cheia e que a barragem de Pisões estaria praticamente na sua quota máxima, era a altura ideal para lá voltar.

Abraçada pelas águas da albufeira do Alto Rabagão, Vilarinho de Negrões encontra-se na base da encosta norte da serra do Barroso (1279 metros). A pequena povoação localiza-se numa pequena península formada pela subida das águas da albufeira do Alto Rabagão – a segunda maior do país, a seguir ao Alqueva – e dista, aproximadamente, vinte quilómetros da vila de Montalegre, bem a norte de Portugal.

O enquadramento natural, de rara beleza, faz com que a aldeia de Vilarinho de Negrões pareça flutuar sobre a água da albufeira formada pela barragem de Pisões. Quem avista a pequena povoação fica com a ilusão de que a aldeia de granito “pousa” calmamente em cima deste magnífico espelho de água.

Vilarinho de Negrões conserva as suas construções tradicionais em granito
Vilarinho de Negrões conserva as suas construções tradicionais em granito

A aldeia é pequena e não tem “grandes” construções para admirar e visitar. Por isso, aproveite para conversar com os seus habitantes e saber um pouco da sua história. Se não entrar em grandes pormenores – há que preservar a segurança e a tranquilidade do local –, os transmontanos (e os habitantes das nossas aldeias em geral) são bons conversadores e estão sempre disponíveis para ajudar e dar dois dedos de conversa.

Para além de desfrutar da magnífica paisagem (por mim, ficava sentado na berma da estrada todo o dia a contemplar tamanha beleza e a saborear a calmaria daqueles locais), passeie-se calmamente pelas (poucas) ruas da aldeia, admire as suas construções tradicionais em granito (material abundante na região), sinta a vivência do local, respire o ar puro e esteja atento aos pequenos pormenores.

Em Vilarinho de Negrões importa estar atento aos pequenos pormenores
Em Vilarinho de Negrões importa estar atento aos pequenos pormenores

A origem de Vilarinho de Negrões

Provavelmente, as origens da aldeia remontam à presença do povo Celta na Península Ibérica. Na serra do Barroso, mesmo ali ao lado, foram encontrados vestígios pré-históricos que atestam a presença humana na região há cinco mil anos.

Aquilo que se sabe, é que toda a região terá sido povoada durante a Idade do Bronze (entre finais do III e meados do I milénios antes de Cristo), por Lusitanos, Vetões e outras tribos Celtas. Depois, deu-se a romanização e, mais tarde, com as invasões germânicas vieram os Suevos e os Visigodos. Também os Muçulmanos por aqui andaram até à Reconquista Cristã.


Vilarinho de Negrões, a albufeira e a serra do Barroso dominam a paisagem
Vilarinho de Negrões, a albufeira e a serra do Barroso dominam a paisagem

O topónimo Vilarinho de Negões

O topónimo da aldeia, vem do diminutivo de vilar (do latim Villaris), que quer dizer pequena aldeia ou povoação ou, simplesmente, um grupo de casas, normalmente, cedidas para usos agrícolas. Ou seja, aqui existia um pequeno povoado agrícola pertencente a Negrões (sede de freguesia e aldeia vizinha), daí o nome de Vilarinho de Negrões.


Vilarinho de Negrões, paisagem de rara beleza
Vilarinho de Negrões, paisagem de rara beleza

À descoberta de Vilarinho de Negrões

Na curta viagem entre a monumental barragem de Pisões e aldeia de Vilarinho de Negrões (cerca de oito quilómetros) parei inúmeras vezes, mesmo ainda antes de avistar a aldeia, para admirar e contemplar esta magnífica paisagem pintada de azuis e verdes e pincelada com tons de vermelho, laranja, roxo e brancos. Um verdadeiro quadro “pintado” pela Mãe-Naureza.

A grandiosidade da albufeira e a serra do Barroso dominam a paisagem. Ao longo da estrada, mesmo junto à água, os recortes da albufeira obrigam-nos a parar para admirarmos a rara beleza desta paisagem. Mais à frente, com o avistamento da aldeia de Vilarinho de Negrões, dá-se o êxtase; uma estreita península de terra entra pela albufeira dentro, fazendo com que aldeia esteja praticamente rodeada por água e o casario de granito, na extremidade da pequena península, dê a ilusão de flutuar sobre as calmas águas da albufeira do Alto Rabagão. É uma paisagem mágica. Lembrando Saramago, poderíamos chamar-lhe “jangada de pedra”.


Vilarinho de Negrões é uma aldeia pequena, rústica, pitoresca e genuína
Vilarinho de Negrões é uma aldeia pequena, rústica, pitoresca e genuína

Chegamos a Vilarinho de Negrões e facilmente nos vemos numa viagem ao passado. A aldeia parece ter parado no tempo, aqui (praticamente) tudo permanece igual desde a altura em que as águas da albufeira chegaram até à aldeia. Nota-se que a vida não foi fácil. Ainda não o é. Esta é uma terra de vida dura passada a trabalhar no campo. Por aqui sempre se viveu, e continua-se a viver, da agricultura e da pecuária.

Vilarinho de Negrões é uma aldeia pequena, rústica, pitoresca e genuína. A aldeia está rodeada por uma paisagem sem igual mas a sua maior riqueza são as suas gentes, humildes, resilientes e atenciosas, que se mantêm firmes na terra que as acolheu ou as viu nascer. Esta é mais uma aldeia adormecida no silencioso mundo rural do interior do país. Tal como a maioria das localidades do interior, também Vilarinho de Negrões padece do despovoamento e do envelhecimento da sua população – a aldeia não tem mais do que duas ou três dezenas de habitantes. E este despovoamento leva ao abandono do casario e sua consequente ruína. É todo um passado e uma história deixados para trás. Apesar da desertificação, a aldeia conserva o seu casario relativamente bem preservado.


Rua principal de Vilarinho de Negrões
Rua principal de Vilarinho de Negrões

Entramos em Vilarinho de Negrões pela sua rua principal entre muros de pedra. É uma rua empedrada, estreita e sinuosa que nos leva até à margem do grande lago.

É à entrada da aldeia que fica o café A Ilha que, ao que parece, é onde se come o melhor prego em pão do país. Confesso que não provei mas, segundo dizem, tal epíteto deve-se à carne barrosã e ao pão caseiro estaladiço.

A aldeia percorre-se rapidamente, mas se quiser ter um olhar mais atento, deve demorar-se por lá. A sua rua principal estende-se casario fora, até à beira da água da albufeira que, por estes dias, em alguns locais, já beijou as rústicas paredes das construções mais ribeirinhas e invadiu terrenos e campos de cultivo.

Vilarinho de Negrões foi finalista no concurso “7 Maravilhas de Portugal” na categoria de “Aldeias Ribeirinhas”. Para além das águas da albufeira, “à volta” da aldeia existem bosques de carvalhos e soutos de castanheiros, onde se ouve o alegre cantar dos pássaros e onde coelhos cruzam a estrada por entre as moitas. Neste pequeno paraíso é fácil ficarmos encantados com tanta beleza.


O QUE VISITAR EM VILARINHO DE NEGRÕES

Vilarinho de Negrões onde o típico e o tradicional ainda imperam
Vilarinho de Negrões, onde o típico e o tradicional ainda imperam

Arquitectura tradicional

O casario da aldeia, em pedra granito, mantém o seu traço tradicional e poucas são as casas que estão rebocadas e pintadas. Aqui o típico e o tradicional ainda imperam. Numa ou noutra casa ainda podemos observar os beirais que antigamente serviam para suportar e proteger as coberturas de colmo. É pena que nestas aldeias do Barroso não se tenham preservado algumas construções cobertas com colmo. Seriam um importante elemento histórico e arquitectural. Numa volta pelas poucas ruas da aldeia podemos ainda encontrar duas casas mais nobres, as Alminhas e o Cruzeiro.


Capela de São Bartolomeu em Vilarinho de Negrões
Capela de São Bartolomeu em Vilarinho de Negrões

Capela de São Bartolomeu

Localizada no meio da aldeia, a pequena Capela de Vilarinho de Negrões é dedicada a São Bartolomeu. A Capela é um templo bastante simples, também ele construído em cantaria de granito. O adro da Capela é um excelente miradouro para a albufeira do Alto Rabagão.


Relógio de Sol em Vilarinho de Negrões
Relógio de Sol em Vilarinho de Negrões

Relógio de Sol

Como já disse, em Vilarinho de Negrões é importante estar atento aos pequenos pormenores que nos podem surpreender em qualquer lugar. Ao percorrer as ruas da aldeia, para além do preservado casario tradicional da região, vai encontrar o antigo Relógio de Sol.

A encimar um pequeno nicho com uma imagem de Santo António, o Relógio, também ele em granito, já teve melhores dias, mas ainda está lá, pedra sobre pedra, e ainda serve para ver as horas.

Em tempos, para além de indicar as horas, este Relógio de Sol servia também para controlar a torna da água – a mudança das águas para a rega dos terrenos. Era por ali que, antigamente, os agricultores se orientavam para mudar o correr da água por entre os terrenos de cultivo.

Este Relógio de Sol é uma peça bastante interessante de meados do século XIX.


Canastro em Vilarinho de Negrões
Canastro em Vilarinho de Negrões

Espigueiros

Em Vilarinho de Negrões vai encontrar diversos Espigueiros – que por aqui se chamam Canastros. Os Canastros são estruturas seculares, características do noroeste da Península Ibérica, por aqui são construídas em granito e madeira, e destinadas a armazenar espigas, preservá-las contra a humidade do ar e do solo e resguardando-as dos animais (principalmente pássaros e roedores).



Fontanários

Vai encontrar alguns fontanários e tanques espalhados pela aldeia. Para além trazerem água potável à sua população, estas estruturas também são utilizadas para lavar roupa e dar de beber ao gado.


Vilarinho de Negrões é um pequeno paraíso do "Reino Maravilhoso" de Torga
Vilarinho de Negrões é um pequeno paraíso do "Reino Maravilhoso" de Torga

Vilarinho de Negrões e a sua envolvente é um local mágico, de uma beleza divinamente simples e perfeita que nos envolve, nos enche a alma e os sentidos. Aqui, longe da correria das cidades, tudo nos transmite calma e leveza. Procure um local à beira da água da albufeira ou no alto de uma elevação, e permita-se abraçar a Natureza. Encha os pulmões de ar puro, contemple a beleza da paisagem e liberte a alma e a mente. É nos lugares mais remotos que encontramos os verdadeiros tesouros.

Vilarinho de Negrões é um bom destino, um pequeno paraíso do “Reino Maravilhoso” de Torga, para quem gosta do contacto com a Natureza, do tradicional e do sossego, rodeado de belas paisagens. Vai ver que no final da visita a Vilarinho de Negrões vai estar mais leve para a viagem de regresso que, no meu caso, foram cerca de 150 quilómetros.

Em 2018, região do Barroso foi declarada património agrícola mundial pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura.


Ali perto…

Albufeira do Alto Rabagão em Vilarinho de Negrões, a segunda maior do país
Albufeira do Alto Rabagão em Vilarinho de Negrões, a segunda maior do país

Albufeira do Alto Rabagão

Sugiro que se faça à estrada e contorne toda a albufeira do Alto Rabagão, uma das mais bonitas do nosso país. São cerca de 40 quilómetros de paisagens fantásticas e irá passar por aldeias maravilhosas da região do Barroso, declarada Património Agrícola Mundial pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, desde 2018. Na margem sul da albufeira o itinerário será por estradas secundárias, mas de grande beleza e, na margem norte da albufeira, pela N103.

Para além da barragem de Pisões e Vilarinho de Negrões, passará pela vizinha, e sede de freguesia, Negrões (em tudo semelhante a Vilarinho quer nas suas casas quer na sua forma de península), Morgade (com a sua igreja de provável construção no século XVII ou XVIII), Criande e Aldeia Nova (duas aldeias coloniais do Estado Novo), São Vicente de Chã (com o seu templo românico, de provável construção no século X ou XI), Travassos da Chã (que também forma uma península), Penedones (onde um enorme penedo se ergue ao alto, praticamente no maio da povoação), Parafita (com o seu forno comunitário), Antigo de Viade (onde também aqui o granito impera), Viade de Baixo (com o seu marco miliário, o Solar dos Queridos e a sua igreja de provável construção no século XIV) e Pisões. Na margem sul da albufeira pode ainda procurar por Alturas do Barroso, por horizontes a perder de vista no miradouro dos Cornos das Alturas (caminhada de 600 metros) ou, se for apreciador de grandes aventuras, pela via ferrata do Tecto do Mundo. Para os amantes dos baloiços, junto a Morgade, há o Baloiço de São Domingos de onde se tem uma maravilhosa panorâmica para a albufeira (caminho de terra batida com cerca de 2.200 metros).


Barragem de Pisões, um imponente muro de betão com 94 metros de altura
Barragem de Pisões, um imponente muro de betão com 94 metros de altura

A Barragem de Pisões e a Albufeira do Alto Rabagão

A Barragem de Pisões é um colosso da engenharia nacional do Estado Novo. A barragem foi projectada em 1958 e construída entre 1960 e 1964. Segundo rezam os registos, aqui trabalharam 15 mil homens, tendo sido construída uma autêntica cidade para albergar tanta gente.

Localizada na bacia hidrográfica do rio Cávado, a Barragem de Pisões é uma das oito barragens que constituem o sistema hidroelétrico Cávado-Rabagão-Homem. A Barragem é um imponente muro de betão com 94 metros de altura e quase dois quilómetros de coroamento que represa as águas do rio Rabagão, afluente do Cávado, que nasce entre as serras do Barroso e do Larouco e tem um comprimento de 37 quilómetros.

A Barragem tem uma central subterrânea (à cota dos 699 metros), conhecida como a “caverna”, comunicando com o edifício de comando através de um poço com uma profundidade de 130 metros e 7,5 metros de diâmetro.

Esta barragem foi a primeira do país a ser dotada com equipamento de bombagem, destinado a elevar, para a sua albufeira, a água da albufeira de Venda Nova, localizada a jusante e em funcionamento desde 1951.

A construção da Barragem de Pisões provocou a inundação de terrenos agrícolas, os baldios do Barroso, que tinham sido colonizados, dez anos antes, pela Junta de Colonização Interna (Colónia Agrícola do Barroso).

A albufeira da Barragem de Pisões, a Albufeira do Alto Rabagão como é denominada, é o segundo maior lago artificial do país, a seguir ao Alqueva. A Albufeira tem uma orla de mais de 30 quilómetros e quase dez de comprimento com paisagens de grande beleza, sendo uma das mais bonitas do nosso país.

Desde 2017 que a Albufeira do Alto Rabagão tem instalada a primeira Central Solar Fotovoltaica Flutuante da Europa, com 840 painéis flutuantes, que dão para o consumo de cerca de 100 famílias.


  • Foto do escritor: João Pais
    João Pais
  • 1 de mai. de 2024
  • 2 min de leitura
Cascata do Fojo em Monção

Vamos conhecer um dos segredos mais bem guardados do concelho de Monção. De fácil acesso, e bem perto da EN101, a Cascata do Fojo é um daqueles locais imperdíveis, agora com uns passadiços para facilitar o acesso.


A Cascata do Fojo era, talvez, um dos segredos mais bem guardados do concelho minhoto de Monção. A Cascata, agora, de fácil acesso, encontra-se num local idílico, rodeado de frondosa vegetação e de velhos moinhos onde o som da água é uma constante.

Localizada na aldeia de Lara, a cerca de seis quilómetros da vila de Monção, e apenas a um da EN101, a Cascata do Fojo fica no ribeiro que recebe o nome da aldeia, já muito perto do rio Minho, de que é afluente. Lara é uma pequena aldeia onde ainda se vive da agricultura, da pecuária e da vinha, ou não estivéssemos em pleno coração das terras do vinho verde Alvarinho.

Passadiço de acesso à Cascata do Fojo em Monção
Passadiço de acesso à Cascata do Fojo

O acesso à Cascata do Fojo faz-se a partir da represa e do tanque comunitário, situados nos limites da povoação. Em 2022 foram construídos uns passadiços, com cerca de 350 metros, para facilitar o acesso à Cascata do Fojo e ao parque de merendas.

Temos que deixar o nosso veículo junto à represa e percorrer os passadiços que

serpenteiam por entre moinhos seculares que nos fazem lembrar uma das antigas actividades da aldeia: a moagem de milho.


Cascata do Fojo em Monção: Os passadiços acompanham o ribeiro por entre velhos moinhos
Os passadiços acompanham o ribeiro por entre velhos moinhos

O percurso que nos leva até à Cascata do Fojo proporciona-nos uma pequena caminhada rodeado por uma densa vegetação verde pontuada, aqui e ali, por pequenos moinhos seculares (alguns em ruínas e outros onde é bem visível a recuperação recente – e menos inspiradora). Aqui, o silêncio só é quebrado pela melodia da água que corre vale abaixo e pelo alegre cantar dos pássaros.


Junto à Cascata do Fojo há um parque de merendas repleto de sombra
Junto à Cascata do Fojo há um parque de merendas repleto de sombra

No final do passadiço vamos encontrar um parque de merendas e a Cascata do Fojo, onde o ribeiro de Lara se precipita duma altura de cerca de três metros entre duas paredes rochosas.

Embrenhado na densa vegetação, vamos encontrar um local muito calmo, de grande beleza e com muita sombra para os dias quentes de Verão. Um recanto digno de um conto de fadas.

Como em todas as cascatas e pequenos cursos de água, estes devem ser visitados a seguir às chuvas de Inverno e durante a Primavera, pois é provável que com o estio algumas destas linhas de água sequem.


A Cascata do Fojo em Monção onde as águas do ribeiro se precipitam entre duas paredes rochosas
A Cascata do Fojo onde as águas do ribeiro se precipitam entre duas paredes rochosas

A Cascata do Fojo, bem perto da bonita vila de Monção, é um local de grande beleza, propício ao descanso, à contemplação, ao relaxamento e à meditação. Um local para se escutar e admirar a Natureza.


Coordenadas GPS:

N 42º2.6442’ W 8º31.67808’

42.044070, -8.527968


Cascata do Fojo em Monção
Cascata do Fojo
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