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  • Foto do escritor: João Pais
    João Pais
  • 28 de fev. de 2025
  • 9 min de leitura

Atualizado: 16 de fev.

O Carnaval tradicional em Portugal
O Carnaval tradicional em Portugal

Porque esta vida são dois dias (e o Carnaval são três…), importa celebrar esta festa popular – a primeira do ano – que alegra muitas localidades do nosso país durante uns dias.

O Carnaval é uma festa popular e um espetáculo cultural que reúne uma mistura de tradições, folclore, música e diferentes performances (mais ou menos) deslumbrantes. Esta é uma tradição que se perde no tempo mas que, em alguns locais, está bem presente na nossa cultura.


A história do Carnaval

A origem do Carnaval estará ligada a cultos ancestrais que pediam boas colheitas, ainda durante o decorrer do período Neolítico. A origem dos festejos do Carnaval é incerta, mas esta festa popular terá surgido na Antiguidade para celebrar os deuses pagãos, a fertilidade, a mãe natureza e o fim do Inverno. Era uma festa em que as pessoas se juntavam com a única intenção de se divertirem.

Os egípcios dedicavam a festa a Isis e a Apis, os gregos a Dionísio e os romanos a Saturno, protector da agricultura e das sementeiras. As Saturnálias, como eram conhecidas as festas, misturavam nas ruas membros da nobreza e escravos, onde havia muita comida, bebida, música e dança. Estas festas eram protegidas por Baco, o deus do vinho. Nos dias de folia, tudo se invertia: o rei da festa (o Rei Momo) era um escravo que podia ordenar o que quisesse durante as festividades. Durante estas festas, as pessoas representavam papéis e calcula-se que, com o passar do tempo, foi introduzido o costume das máscaras, muito provavelmente trazidas do teatro grego.

Com o fim do império romano e com a ascensão do cristianismo, estas festividades correram o risco de acabar. A Igreja quis cancelar as Saturnálias, o que não foi bem visto pelas populações, “obrigando” a Igreja a reconhecer estas festas. Mais tarde, depois de muitos séculos, os festejos do Carnaval terão sido reconhecidos pela Igreja e inseridos no calendário cristão. Em 340, o Papa Júlio I autorizou que os cristãos pudessem despedir-se em grande dos prazeres da carne (em todos os sentidos…). Estes três dias de folia antecedem a Quaresma – período de que corresponde a dias de jejum e abstinência. A Quaresma tem início no dia seguinte, na chamada quarta-feira de Cinzas e que termina na Quinta-feira Santa.



Em algumas terras, por exemplo, no norte de Portugal e na Galiza, o Carnaval assume o nome de Entrudo, designação que evoca a vertente religiosa desta festa que se comemora sempre à terça-feira e 47 dias antes do domingo de Páscoa. Este era um antigo festejo no qual os foliões se sujavam com farinha, arremessavam baldes de água, limões de cheiro, ovos, tangerinas, pastelões, luvas cheias de areia e batiam com vassouras e colheres de pau.

A origem da palavra Carnaval virá do latim carnelevamen, que terá derivado em carne vale que significa “adeus à carne”, referência à proibição da carne durante a Quaresma. Mas carnis levamen pode significar igualmente “prazer da carne”. Já a palavra Entrudo vem do latim intoitum, que significa “entrada”, ou seja, a entrada na Quaresma.

A moda das máscaras terá surgido no século XIII, quando os nobres franceses começaram a promover grandes festas onde era obrigatório o uso de máscaras e de roupas luxuosas. Nos séculos XV e XVI, durante o Renascimento, em Itália, terão surgido os primeiros cortejos de rua. Desde então, o Carnaval é reconhecido como festa popular de rua que foi sofrendo uma série de modificações culturais até chegar aos dias de hoje, celebrando-se um pouco por todo o Mundo.


O Carnaval em Portugal

Em Portugal, o Carnaval já era comemorado nos séculos XV e XVI, embora conhecido como Entrudo, a entrada na Quaresma. Uma das épocas de maior projecção do Carnaval no nosso país ocorreu durante o reinado de D. João V, com características palacianas e marcadas por um enorme luxo. Nos séculos XVII e XVIII, durante a colonização, um grande número de portugueses mudaram-se para o Brasil, levando consigo este costume de festejar o Entrudo. Depois, já no século XIX, o Carnaval do Brasil foi-se desenvolvendo com a introdução de uma série de novas práticas e de novos ritmos, tornando-se no mais famoso Carnaval do Mundo.

Por todo o país existem mil e uma festas carnavalescas. Há-as para todos os gostos: das mais tradicionais, que vão buscar usos e costumes ancestrais, às de influência brasileira com escolas de samba, passando pelos desfiles de carros alegóricos com sátira social e política. Só para mencionar os mais conhecidos, temos dias de grande folia no Funchal, Estarreja, Loulé (o corso mais antigo de Portugal), Mealhada, Ovar, Sesimbra, Sines e Torres Vedras (um dos mais famosos de Portugal, onde não podem faltar as matrafonas e os cabeçudos), todos “servidos” com mais ou menos doses generosas de samba.


Mas, Linha de Terra prefere os festejos mais tradicionais como o Entrudo Chocalheiro de Podence (Macedo de Cavaleiros) com os seus caretos coloridos; o desfile de cabeçudos e gigantones de Barcelos; o Entrudo de Lazarim (Lamego) com as suas máscaras de madeira;

já em Vale de Ílhavo, há a Cardação das Raparigas – os cardadores são homens mascarados que saltam e gritam e que vão pelas ruas em busca de raparigas. As suas máscaras podem ser elaboradas com pele de carneiro ou asas e penas de galinha; os Caretos da Lagoa (Mira), com as suas saias vermelhas, chocalhos e máscaras de cartão enfeitadas com chifres de animais; o grande baile popular de Cabanas de Viriato (Carregal do Sal) com a (já) famosa dança dos cus, que junta umas largas centenas de pessoas que “dançam” em plena rua, em duas filas, batendo com os ditos uns nos outros – ao que parece, esta tradição terá sido criada no século XIX por um grupo de teatro; ou o Entrudo das Aldeias do Xisto de Góis, onde se usam máscaras em cortiça.

Estes são festejos de cariz mais tradicional, normalmente, ligados a rituais ancestrais, a figuras demoníacas e misteriosas e às máscaras (os caretos). Sempre em festas muito musicais, alegres e coloridas. Linha de Terra conhece bem o Entrudo Chocalheiro dos Caretos de Podence e o Entrudo de Lazarim, dois exemplos dos mais tradicionais carnavais portugueses. Festejos populares que prometem encher as ruas destas duas localidades de animação e de muitos foliões carnavalescos.


Careto de Podence
Careto de Podence

O Entrudo Chocalheiro de Podence

Podence é uma pequena aldeia no concelho de Macedo de Cavaleiros. A aldeia está debruçada sobre a A4 com vista para a maravilhosa albufeira do Azibo e das suas excelentes zonas balneares. Os Caretos de Podence são Património Imaterial da Humanidade da Unesco desde 2019.

Em meados do século passado a tradição esteve em risco de se perder, devido à Guerra Colonial de África e por causa da imigração. Actualmente, a aldeia conta com pouco mais de 200 habitantes e, após algum esforço e dedicação a tradição foi recuperada. Hoje, o Entrudo Chocalheiro e os Caretos de Podence não só são um legado importante mas também uma atracção turística para a região e para o país.

Os Caretos são seres mitológicos, seres mágicos, que nestes dias invadem e tomam conta da rua principal da aldeia para purificar e limpar os corpos do mal.

Dentro dos seus fatos quentes cobertos de franjas de cores garridas, onde o vermelho, o amarelo e o verde sobressaem, os Caretos, sempre homens, permanecem anónimos por detrás das máscaras de chapa (ou couro) – em geral pintadas de vermelho ou preto e com uma cruz na testa – protegidas por grandes capuzes de onde pendem enormes caudas. À cintura trazem cintos de couro com enormes chocalhos para chocalharem nas nádegas femininas – um ritual pagão cuja origem se perde no tempo.



No Carnaval de Podence tudo é improvisado e espontâneo. A festa consiste em grupos de Caretos acompanhados de gaiteiros a percorrerem a rua principal da aldeia que liga a igreja matriz (construída no final do século XVII e dedicada a Nossa Senhora da Purificação) e a entrada da aldeia onde fica a Casa do Careto (aproveitamento da antiga escola primária).

De chocalhos à cintura e vara na mão, os Caretos parecem ter o diabo no corpo. Correm, saltam, dançam, gritam, perseguem as mulheres e assustam os visitantes. Sempre que avistam uma mulher desprevenida, rapidamente põem-se ao lado dela e chocalham-na nas nádegas.

A festa termina com a queima do entrudo, um enorme Careto colocado em frente à Casa do Careto, à entrada da aldeia.


Entrudo em Lazarim
Entrudo em Lazarim

O Entrudo de Lazarim

Lazarim é uma pequena vila serrana pertencente ao concelho de Lamego. Tem pouco mais de 500 habitantes e a sua igreja matriz, dedicada ao Arcanjo São Miguel, possui um fantástico e muito valioso tecto pintado, onde se representam anjos e arcanjos, entre outras figuras sacras. A vila apresenta ainda um moderno Centro Interpretativo da Máscara Ibérica, no remodelado solar dos Viscondes de Lazarim, onde se investiga e divulga a máscara na sua vertente mais tradicional da celebração do Entrudo.

O Entrudo de Lazarim é conhecido essencialmente por ser um dos mais genuínos de Portugal e pelas suas máscaras esculpidas em madeira de amieiro. Aqui as máscaras são trabalhadas à mão por artesãos locais – actualmente existem cerca de uma dúzia –, onde cada peça é única, cheia de originalidade e repleta de riquíssimos pormenores. Uma obra de arte! As máscaras de Lazarim também são candidatas a Património Imaterial da Humanidade da Unesco.

Diz a tradição que as máscaras têm que ser esculpidas à mão em troncos de amieiro. Existe todo um sortido de imagens fantásticas e misteriosas que vão de figuras de animais, reis, figuras mágicas ou demónios, quase sempre com grandes cornos.

As máscaras de Lazarim sendo de uma simplicidade quase grosseira, têm uma riqueza de pormenores e uma beleza própria que, certamente, estão ao nível do que de melhor se faz no nosso país em matéria de artesanato. Antigamente as máscaras eram coloridas, mas optou-se por manter a cor natural da madeira – uma maneira de manter as peças mais próximas das suas raízes.

Entrudo de Lazarim
No Entrudo de Lazarim as máscaras têm de ser esculpidas por um artista local

No Entrudo de Lazarim, existe um desfile e um concurso de máscaras. Aqui, qualquer pessoa, residente ou de fora, pode participar e esconder-se por detrás de uma máscara de madeira. A única exigência é que a máscara seja esculpida por um artista local. A máscara deve ser acompanhada por um fato condizente e quanto mais extravagante melhor. Podemos observar fatos feitos com materiais da terra que passam pela palha, barbas de milho, folhas de árvores, ramos de mimosas e “adereços de moda” como cabaças, cajados, enxadas e outras ferramentas agrícolas.

Mas este Entrudo não se fica por aqui. Outro ponto alto da festa, na terça-feira de Carnaval, é a leitura do Testamento do Compadre e da Comadre, escritos em versos de escárnio e mal dizer trocados entre jovens solteiros (rapazes e raparigas) da vila e arredores. Eles e elas redigirem os Testamentos onde contam todos os defeitos dos conterrâneos do sexo oposto, por vezes recorrendo ao sarcasmo e ao palavrão. Os versos são depois recitados na praça central da vila perante locais e visitantes, por vezes fazendo corar as pedras da calçada e soltando grandes gargalhadas entre os presentes.

No fim, há um desfile de Caretos e são queimados os bonecos do Compadre e da Comadre e, numa das praças da vila, há feijoada e caldo de farinha para os visitantes, tudo cozinhado em grandes panelas de três pernas em ferro fundido.


Queima do Entrudo em Podence
Queima do Entrudo em Podence

O fim da festa

Em muitos locais, para finalizar os festejos carnavalescos e iniciar a Quaresma, celebra-se também o Enterro do Entrudo que, em algumas terras, assume nomes diferentes como o Enterro do João, a Queima do Entrudo, Queima do Galo, etc. Estas manifestações terminam os festejos carnavalescos e são uma espécie de cortejo fúnebre (em alguns casos com direito a urna e carpideiras) onde há a leitura de um testamento e a queima do “defunto”.

Em Melgaço, existe a Queima do Entrudo com figuras de saia vermelha, camisa e lenços amarelos, bordados de cores garridas, e um chapéu de cartão enfeitado com fitas e com um tecido a esconder a cara. Em Vinhais, a quarta-feira de cinzas é o Dia dos Diabos, com figuras da morte e diversos diabos a percorrerem as ruas da vila atrás de almas pecadoras. Diabos e a tenebrosa morte saem à rua castigando foliões e perseguindo sobretudo as raparigas solteiras a quem não dão descanso.

Na Guarda, fazem o Julgamento e a Morte do Galo do Entrudo. No centro da praça, é colocado um enorme galo que representa a crise, a corrupção e todos os males que ocorreram ao longo do ano. O Galo é julgado e queimado em praça pública para trazer esperança para os próximos tempos. No final do julgamento, o enorme galo é queimado e é cozinhada uma canja de galo para servir por todos.


Estes são alguns dos muitos aspectos e formas de festejar o Carnaval mais tradicional e típico das diferentes regiões do nosso país – tradições ancestrais que importam manter e preservar. Independentemente de se gostar de mais ou menos corsos carnavalescos, mais ou menos samba, os próximos dias prometem encher as ruas das nossas localidades de foliões, alegria e muita cor.


 
 
  • Foto do escritor: João Pais
    João Pais
  • 14 de dez. de 2024
  • 3 min de leitura

Atualizado: 15 de dez. de 2024


Torre da Lapela, em Monção
Torre da Lapela, em Monção

A Torre de Lapela ergue-se imponente e heroica junto à margem esquerda do rio Minho, na fronteira norte de Portugal. Esta torre medieval da era das guerras peninsulares do século XIV era a antiga torre de menagem do Castelo da Lapela que defendeu, ao longo de muitos séculos, o rio Minho e a integridade do território nacional nos diversos conflitos entre Portugal e Castela.


Torre de Lapela, monumento nacional
Torre de Lapela, monumento nacional

A Torre de Lapela localiza-se junto ao rio Minho, na freguesia de Troporiz e Lapela, no município de Monção, a pouco mais de seis quilómetros desta bonita vila raiana do Alto Minho.

Ao longo de 800 anos o leito do rio Minho foi palco de diversos conflitos entre portugueses e espanhóis. O rio Minho era (e ainda é) um curso de água de grande relevância, pois durante muito tempo, foi uma importante via de comunicação e era essencial paras as populações locais, quer pela sua água, quer pelas suas margens férteis para a agricultura e pelas suas pesqueiras. Por isso, era importante defender esta região.

O Castelo de Lapela estava situado num afloramento rochoso a meio caminho entre Valença e Monção, defendendo o vau do rio Minho. O Castelo de Lapela, para além de fazer o controle de parte do rio Minho e da sua travessia, desempenhou um papel importante na consolidação do reino.

Não se sabe muito sobre a fundação do Castelo de Lapela, mas julga-se que aqui terá existido um primitivo castelo datado do século XII. Essa fortificação terá sido construída por Lourenço de Abreu – um dos maiores fidalgos e cavaleiros medievais do Reino de Portugal da altura –, por ordem de D. Afonso Henriques, para defender as margens do rio.

Mais tarde, durante o século XIII, o Castelo de Lapela terá sido repovoado por D. Sancho I. A sua torre de menagem, a actual Torre de Lapela e o único vestígio deste Castelo, terá sido construída, mais tarde, no século XIV, durante o reinado de D. Fernando, durante as guerras com Castela.

Entrada para a Torre de Lapela
Entrada para a Torre de Lapela

No século XVI, D. Manuel I encomenda a Duarte de Armas, escudeiro da Casa Real, a vistoria dos castelos e fortalezas da fronteira com Castela (dando origem ao Livro das Fortalezas – importante manuscrito quinhentista em dois volumes, executado em 1509-1510, com desenhos de 56 castelos fronteiriços do Reino de Portugal e ainda do castelo de Barcelos e do palácio de Sintra, todos visitados pelo autor que percorreu a cavalo a maioria das povoações acasteladas da fronteira, elaborando esboços, panorâmicas e plantas dos respetivos castelos, nelas indicando os trechos mais arruinados e onde seria necessário fazer obras).

Duarte de Armas elaborou vários desenhos e notas que nos permitem saber como era este Castelo naquela época. Nesta obra, o Castelo de Lapela surge com três torres onde se destacava a torre de menagem (único elemento que ainda hoje existe) e a torre da couraça, implantada sobre o rio Minho, permitindo o abastecimento de água em caso de conflito.

Durante os conflitos com Castela, o Castelo de Lapela foi duramente atingido pela artilharia espanhola, tendo ficado em mau estado. Após a restauração da Independência portuguesa, em 1640, e até aos inícios do século XVIII, deu-se a reformulação da praça de Monção. EM 1706, D. João V autorizou a demolição do Castelo de Lapela para usar as suas pedras na construção da moderna fortaleza que se estava a erguer em Monção. A torre de menagem foi a única estrutura que sobrou e que sobreviveu até aos nossos dias.

Em meados do século XX, pelas comemorações nacionalistas do Estado Novo, a Torre de Lapela foi alvo de um restauro, mas que descurou o estudo da área envolvente, já que junto à fachada sul erguem-se vários espigueiros que, na altura, não foram recuperados e, hoje, encontram-se muito danificados.

Antigos canastros junto à Torre de Lapela
Antigos canastros junto à Torre de Lapela

A Torre de Lapela, situada a cerca de seis quilómetros de Monção, é uma grandiosa e imponente construção medieval, sobranceira ao rio Minho, com 35 metros de altura e visível a grande distância.

A Torre de Lapela é, assim, um importante legado histórico e arquitectónico, agora utilizada como Núcleo Museológico pela edilidade local (desde 2016) sendo um elemento de promoção cultural do concelho, permitindo a quem a visita conhecer melhor a sua história. A Torre de Lapela está classificada como monumento nacional desde 1910. Pena não estar aberta quando a visitei, para poder subir ao seu topo e admirar as bonitas vistas sobre o rio Minho e zona envolvente.


Coordenadas GPS:

N 42°3.38346' W 8°32.2698'

42.056391 -8.53783


 
 
  • Foto do escritor: João Pais
    João Pais
  • 11 de nov. de 2024
  • 16 min de leitura

Alpedrinha é uma vila encantadora debruçada na serra da Gardunha onde se respira ar puro e onde a água, cristalina e gelada, vem da serra a correr encosta abaixo. A vila foi conquistada por romanos e atacada pelas tropas de Napoleão. Saramago, no seu livro “Viagem a Portugal”, escreveu que em Portugal “Não faltam povoações escondidas mas esta Alpedrinha é secreta”. E, de facto, tinha razão: há muito para descobrir em Alpedrinha.



Falar em Alpedrinha obriga, de imediato, a remeter-nos para o Palácio do Picadeiro, local de visita obrigatória, postal ilustrado e ex-libris desta vila. No entanto, é um pouco redutor ficarmo-nos por esta referência numa vila encantadora e apaixonante que tem tanto para oferecer ao visitante. Vamos calcorrear ruas estreitas e inclinadas de Alpedrinha e descobrir, entre o casario tradicional, palácios escondidos, chafarizes monumentais, ofícios antigos e até arte urbana.

A vila de Alpedrinha, no concelho do Fundão, está situada na vertente sul da serra da Gardunha (1.227 metros), a cerca de 570 metros de altitude e protegida dos ventos de Inverno. O seu casario tradicional estende-se encosta acima entre ruas sinuosas e estreitas. A estrada nacional 18, que liga a vila à cidade do Fundão (12 quilómetros), divide-a a meio, assim como a moderna auto-estrada A23, mesmo ali ao lado, com os túneis de Alpedrinha (280 metros) e da Gardunha (1.604 metros), veio esventrar a serra e retirar o trânsito e as pessoas que passavam pela vila.

Alpedrinha, devido à sua beleza e ao seu património monumental, foi apelidada pela Marquesa de Alorna (1750-1839), quando ali esteve, de “Sintra da Beira” – eu detesto este tipo de comparações entre localidades e lugares. Cada um tem as suas histórias, as suas características e belezas próprias, não havendo necessidade de comparações, por vezes, sem nexo nenhum. Pela sua envolvência geográfica, Alpedrinha faz parte da rede de Aldeias de Montanha – uma rede de aldeias que visa o desenvolvimento integrado através do turismo de natureza e que engloba 41 aldeias que se destacam pela sua grande beleza natural, cultura e tradições. Estas aldeias estão espalhadas pelo Parque Natural da Serra da Estrela e áreas adjacentes, bem como pela zona de Paisagem Protegida da Serra da Gardunha, distribuídas pelos concelhos de Covilhã, Seia, Guarda, Manteigas, Celorico da Beira, Oliveira do Hospital, Gouveia, Fundão e Fornos de Algodres.

Alpedrinha
Alpedrinha

Alpedrinha está rodeada de terrenos férteis e com água abundante, elementos convidativos para as famílias com poder económico construírem aqui os seus solares e casas apalaçadas. Actualmente, a vila tem pouco mais de 900 habitantes, mas em tempos idos, em que chegou a ser sede de concelho, em meados do século XIX, chegou a ter mais de sete mil residentes. Sempre foi uma terra rica e pouso de gente abastada. Por isso, não estranhe que seja aqui, em Alpedrinnha, que encontra o primeiro teatro construído na região, que tenha tido uma estalagem para quem quisesse ir passar férias e respirar o ar puro da serra da Gardunha e uma das maiores piscinas das Beiras.

A piscina de Alpedrinha foi inaugurada em 1957 e viria a tornar-se numa conhecida piscina na Beira Baixa, quer pelas dimensões, quer pela água pura que vem da Serra da Gardunha. A piscina todos os anos é cheia com as águas puras e límpidas que chegam diretamente da Serra da Gardunha e que se mantém a entrar e sair, ou seja, sem bombas de recirculação. Esta piscina tem cinco metros de profundidade e 33 de comprimento, levando cerca de 1.500.000 litros de água e encontra-se no empreendimento Casas de Alpedrinha, não sendo necessário estar ali alojado para desfrutar da piscina.

A vila de Alpedrinha surpreende o visitante menos prevenido, não só pelos seus solares e casas apalaçadas, mas também pela preservação de construções de arquitectura tradicional beirã. Há ainda os inúmeros fontanários e chafarizes com água que vem directamente das nascentes da serra da Gardunha. Mas, Alpedrinha “esconde” mais segredos.


A origem de Alpedrinha

Alpedrinha é conhecida desde tempos antigos. A localidade teve origens pré-históricas, como se comprova pelos vestígios castrejos que ainda se conservam na localidade e arredores. A vila possui vestígios de ocupação romana e, posteriormente, medieval, o que comprova a importância desta localidade ao longo dos séculos. A calçada romana, que ligava a localidade ao Fundão e por onde os pastores levavam os rebanhos até à Serra da Estrela, serviu de base ao traçado do aglomerado medieval, que se mantém até aos dias de hoje sem grandes alterações.


O topónimo Alpedrinha

Alpedrinha vem do latim “Petrinea”, que significa pedrinha, com o prefixo árabe “Al”. Os romanos chamavam-lhe Petratínia. Existe alguma confusão, entre os topónimos Alpreade e Alpedrinha, nomeadamente, através do foral de Alpreade (1202), antigo concelho da região e que englobava a localidade de Alpedrinha e de Castelo Novo. Segundo alguns historiadores, Alpreade seria a antiga designação de Castelo Novo, já que este é o nome da ribeira que corre ao lado daquela vila.

Os naturais ou residentes em Alpedrinha denominam-se de Alpetrinienses


História de Alpedrinha

A fundação de Alpedrinha é muito anterior ao período romano, talvez de origem pré-histórica ou proto-histórica, devido aos inúmeros vestígios materiais e toponímicos. Existem vestígios da presença de um castro romanizado no topo de um cabeço que se ergue contíguo à actual povoação. No século I, quando Egitânia (Idanha-a-Velha) se tornou um importante centro na região, construí-se uma via romana que passa junto ao Palácio do Picadeiro e que, ainda hoje, pode ser identificada em alguns troços entre Castelo Novo, Alpedrinha e Alcongosta.

Sabe-se que, ao longo da História, por aqui andaram Romanos, Suevos, Visigodos e Árabes que, por aqui, terão resistido até ao início do século XIII. Em 1266, Alpedrinha à doada aos Templários, passando depois, com a extinção da Ordem do Templo, em 1312, a pertencer à Ordem de Cristo.

O desenvolvimento da povoação verifica-se sobretudo a partir do século XVI e em 1675 a localidade é elevada a vila e a sede de concelho pelo príncipe regente D. Pedro. Alpedrinha foi sede de concelho até 1855 tendo, depois, sido integrada no concelho do Fundão.

A partir de 1808 Alpedrinha foi alvo de brutais ataques pelas tropas de Napoleão que, por diversas vezes, a destruíram e pilharam. Junto à igreja matriz está uma homenagem às pessoas que perderam a vida, vítimas das Invasões Francesas. Apesar da destruição e pilhagem, Alpedrinha conseguiu preservar um notável conjunto de edifícios com elevado valor arquitectónico e histórico, como veremos mais à frente.

Alpedrinha viu nascer Jorge Martins, o futuro Cardeal de Alpedrinha que viria ser uma figura proeminente da Igreja, tanto em Portugal como no Vaticano.


Estátua do Cardeal de Alpedrinha
Estátua do Cardeal de Alpedrinha

O Cardeal de Alpedrinha

Foi em Alpedrinha que nasceu D. Jorge da Costa (1406-1508), o Cardeal de Alpedrinha como viria a ficar conhecido. D. Jorge da Costa alcançou notoriedade na corte, granjeou imenso poder na Igreja – foi bispo de Évora, arcebispo de Lisboa e de Braga. Foi eleito Cardeal pelo Papa Sisto IV, em 1476. Foi para Roma em 1483 – onde acabou por passar o resto da sua vida –, onde o seu prestígio e poder foram crescendo e, segundo se diz, não foi Papa porque se recusou. O Cardeal de Alpedrinha, enquanto esteve no Vaticano, teve grande influência no Tratado de Tordesilhas (1494). Deve-se, ainda, ao Cardeal de Alpedrinha a criação da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (1498), devido ao apoio que deu à rainha D. Leonor, tendo movido influências em Roma para que a instituição tivesse o reconhecimento do Papa. Alpedrinha homenageou este ilustre filho da terra com uma estátua que está em frente a Igreja da Misericórdia, junto à N18.


A arte dos Embutidos

Mas a vila de Alpedrinha não guarda só património arquitéctonico. Alpedrinha guarda também uma arte ancestral, a Arte dos Embutidos, ou Maquetaria ou, ainda, Marchetaria.

A arte dos Embutidos é uma técnica (muito antiga) de ornamentar superfícies de madeira (móveis, painéis, pisos ou tectos) através da aplicação de peças (por vezes muito pequenas) de outra cor, de modo a contrastar e a criar desenhos artísticos ou geométricos. Esta é uma técnica que exige muita mão-de-obra e muito saber. A arte dos Embutidos requer muita paciência e, infelizmente, está em vias de desaparecer, pois já são muito poucos os artistas que se dedicam a esta actividade.

Esta arte foi praticada habilmente pelos antigos egípcios, mas são conhecidas peças desde 3.000 a.C.. Os Embutidos foram muito utilizados no Oriente e, na Europa, a técnica foi difundida durante a Idade Média, considerando-se o seu período áureo durante os séculos XVII e XVIII.

Alpedrinha está ligada a esta arte devido à família Parente Pinto, uma família com tradições nesta arte desde o século XIX e cujo antepassado José Joaquim dos Santos Pinto Delgado foi entalhador da Casa Real, no reinado de D. Carlos (1863-1908).

Hoje, alguns dos últimos exemplares produzidos em Alpedrinha desta arte ancestral, podem ser apreciados no Museu dos Embutidos – antiga residência e marcenaria da família Parente Pinto, actualmente propriedade da Santa Casa da Misericórdia de Alpedrinha e no Palácio do Picadeiro.


A transumância

A transumância é a deslocação sazonal de rebanhos da planície para as montanhas e vice-versa. Alpedrinha está particularmente ligada a este movimento de deslocação de pastores e dos respectivos rebanhos (de gado ovino) para locais que oferecem melhores condições – as pastagens das montanhas no Verão, e os vales e planícies no Inverno –, pois era por aqui, pela Calçada Romana, que passavam os pastores do norte do Tejo que se dirigiam, todos os anos, até à Serra da Estrela. Alpedrinha tem mesmo uma enorme pintura do artista Styler (João Cavalheiro), numa das paredes da vila onde se faz uma homenagem aos pastores e à transumância.

As rotas da transumância são uma herança cultural ainda hoje preservadas em algumas regiões do país. Estas deslocações sazonais durante milénios promoveram uma relação sábia e importante entre homens e animais na procura de um equilíbrio natural entre o território e os recursos ritmados pelas estações do ano.

A transumância é, por aqui, algo marcante e, todos os anos, geralmente em Setembro, é-lhe dedicada um festival que enche as ruas desta pitoresca localidade, o Festival dos Caminhos da Transumância, também denominado por Festival Chocalhos, um dos eventos mais importantes do concelho do Fundão. Este festival assinala a passagem dos rebanhos serranos pelas ruas da vila e o seu programa tem concertos, espectáculos de rua, oficinas, exposições, conversas, gastronomia, mostras de artesanato e produtos da terra, mas a actividade mais esperada é a caminhada com o rebanho pela serra acima. A Travessia Pedestre da Gardunha, desafia os visitantes a acompanhar um rebanho pelo caminho da transumância entre a cidade do Fundão e a vila de Alpedrinha ao som de chocalhos, bombos e pífaros. Certamente, uma experiência inesquecível para quem gostar de caminhadas.


Vista geral de Alpedrinha
Vista geral de Alpedrinha

O que visitar em Alpedrinha

Alpedrinha é uma vila encantadora e secreta, mas não nos devemos render às evidências nem sequer em exclusivo ao maravilhoso Palácio do Picadeiro. Na realidade a vila de Alpedrinha esconde alguns tesouros e há muita coisa para descobrir. Por isso, venha com tempo para partir à descoberta e percorrer as íngremes e sinuosas ruas do seu centro histórico onde vai poder encontrar alguns solares e casa nobres, algumas casas de arquitectura tradicional beirã, com as suas varandas em madeira que, certamente, captarão a atenção dos visitantes. Mas, como eu disse, Alpedrinha esconde alguns tesouros (quase secretos) da região, como são o caso do teatro mais antigo de toda a região e do distrito de Castelo Branco, com mais de cem anos de história, o Teatro Clube de Alpedrinha, inicialmente conhecido por “Casa da Ópera”, o Museu dos Embutidos, uma tradição local que já vem do século XIX, quando um marceneiro local foi nomeado entalhador da Casa Real e, ainda, uma das maiores piscinas das Beiras, inaugurada no tempo áureo de Alpedrinha, em meados do século XIX, que se tornaria famosa quer pelas suas grandes dimensões, quer pela sua água vinda directamente das nascentes da serra da Gardunha.

Não percamos tempo e vamos partir à descoberta desta Alpedrinha cheia de encantos e de tesouros.


Palácio do Picadeiro, em Alpedrinha
Palácio do Picadeiro, em Alpedrinha

Palácio do Picadeiro

Para descobrir um dos edifícios mais emblemáticos de Alpedrinha é necessário subir as suas ruas sinuosas e, por final, calcorrear um pouco da calçada romana até o cimo da vila. Lá no alto, espera-nos o Palácio do Picadeiro, um local de visita obrigatória.

O Palácio do Picadeiro é um palacete barroco (recuperado) que nos faz viajar no tempo. O imponente edifício dos finais do século XVIII foi mandado construir por Francisco Lopes Sarafana Correia da Silva, um reputado magistrado de Alpedrinha, hipoteticamente sobre uma anterior construção que terá pertencido à Companhia de Jesus. O palacete nunca foi acabado, alegadamente, por falta de verba do então proprietário mas, por aqui, ainda se conta uma alegada história popular, de que o Palácio não foi acabado devido a um embargo real, dizem os populares mais antigos, que a obra apresentava tamanha opulência que o Rei teve inveja e proibiu a sua conclusão...

Durante o século XIX, depois da família abandonar o palacete, aqui funcionou o tribunal da comarca, a tipografia Estrela da Beira e, durante as obras do Hospital da Misericórdia, esteve aqui instalada uma unidade daquele hospital. Após muito tempo ao abandono, em 1977, a Câmara Municipal do Fundão adquire o palacete. Já no século XXI o palacete é requalificado e, actualmente, é o Centro do Visitante de Alpedrinha, o Centro de Interpretação da Rota da Transumância e um espaço museológico dedicado à arte dos embutidos, onde se expõe, entre outras peças, um magnífico contador com desenhos alusivos a seis cantos de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões. O nome do Palácio deve-se à existência de um antigo picadeiro no pátio fronteiro ao edifício, onde se realizavam exercícios de equitação.


Chafariz de D. João V
Chafariz de D. João V

Chafariz de D. João V

Ao longo das ruas da vila vamos encontrar diversos chafarizes e fontanários, mas é logo abaixo do Palácio do Picadeiro que está o Chafariz de D. João V, também designado por Chafariz Real. O Chafariz, de estilo barroco, mandado construir por D. João V, em 1714, é uma enorme construção em granito trabalhado e é considerado um dos maiores do país. O Chafariz que é rematado com a coroa e as armas reais, apresenta dois níveis com dois tanques e uma escadaria. O Chafariz apresenta uma fonte com três bicas que, segundo os mais antigos, é dedicada às mulheres. Por aqui, diz-se que a bica da esquerda era para as bruxas, a do meio para as solteiras e a da direita para as casadas. Como noutras localidades, também por aqui se diz que quem for de fora e beber desta água, voltará mais tarde a Alpedrinha. Eu bebi, agora vamos ver se se confirma (o que não me importava nada, pois é uma vila muito bonita).

Durante a o restauro do Chafariz (em meados do século XX) foi descoberta uma ara nas paredes de suporte, pelo que se julga que aqui poderá ter existido uma outra fonte, provavelmente, da época romana já que, mesmo ao lado, passa a calçada romana. No século XVIII o chafariz chegou a possuir um grande lago fronteiro onde se banhavam os cavalos e do qual não restam quaisquer vestígios.

Capela de São Sebastião
Capela de São Sebastião

Capela de São Sebastião

Um pouco mais acima do Palácio do Picadeiro, seguindo a calçada romana em direcção à serra da Gardunha, fica a Capela de São Sebastião, um templo de provável construção no século XVI, e que terá pertencido à Companhia de Jesus. A Capela de São Sebastião é construída em alvenaria de granito e apresenta um alpendre sustentado por quatro colunas graníticas já do início do século XX.


Calçada Romana em Alpedrinha
Calçada Romana em Alpedrinha

Calçada Romana

Como já adiantei, a origem de Alpedrinha é pré-histórica e, posteriormente, durante a época romana a povoação foi atravessada por uma via romana que ainda hoje é (bem) visível e é um dos mais bem preservados exemplares de via romana existentes no nosso país. A Calçada Romana de Alpedrinha faz parte de um conjunto composto por seis vias descontínuas que ligariam Castelo Novo, Alpedrinha, Alcongosta e o Fundão e é utilizada desde há 2000 anos. O traçado desta via romana serviu de base, durante a idade média, para o traçado do núcleo urbano de Alpedrinha que se mantém sem grandes alterações até aos dias de hoje.

A Calçada Romana serviu também de passagem para os pastores a norte do Tejo que, todos os anos, faziam a transumância, levando os seus rebanhos até à serra da Estrela.


Igreja matriz de Alpedrinha
Igreja matriz de Alpedrinha

Igreja Matriz, Igreja de São Martinho Bispo

Um pouco abaixo do Chafariz Real fica a Matriz de Alpedrinha. A Igreja é um templo do século XVI que veio substituir um outro anterior de origem medieval (século XII). A Igreja de São Martinho Bispo é um edifício imponente, em granito, com duas torres sineiras construídas já nos finais de setecentos. O templo terá sido alvo de várias reconstruções. No seu interior a Matriz de Alpedrinha apresenta três naves e tecto em madeira. Tem várias capelas ricamente decoradas com talha dourada e pintada e, na capela-mor, tem um vistoso órgão de tubos do século XVIII. Ao fundo das escadas de acesso à Igreja está uma placa de homenagem às vítimas das Invasões Francesas.

Logo ao lado da matriz está a casa de D. Jorge da Costa, Cardeal de Alpedrinha (1406-1508), um edifício seiscentista com o brasão do Cardeal.


Pelourinho de Alpedrinha
Pelourinho de Alpedrinha com o antigo edifício dos Paços do Concelho

Pelourinho de Alpedrinha

Situado um pouco mais abaixo da igreja matriz, o Pelourinho de Alpedrinha encontra-se em frente ao antigo edifício dos Paços do Concelho. O Pelourinho é uma estrutura em pedra de granito, do século XVII, onde ainda são visíveis os ferros de sujeição e no seu capitel apresenta nas quatro faces, respectivamente, o escudo nacional, a esfera armilar, uma inscrição referente a D. Pedro e o ano da sua construção.


Capela do Leão
Capela do Leão

Capela do Leão

Localizada, sensivelmente, a meio da encosta que nos leva ao Palácio do Picadeiro, a Capela do Leão é um templo de finais do século XV ou inícios do século XVI, e tem orago a Santa Catarina. A Capela do Leão está adossada ao Solar dos Pancas (século XIX) e julga-se que o nome da Capela esteja relacionada com a fonte ao seu lado, Fonte do Leão (uma das mais antigas fontes de Alpedrinha), que apresenta(va) um leão esculpido no seu espaldar.

A Capela do Leão apresenta um bonito pórtico e medalhões com as figuras de São Pedro e São Paulo e ainda a a imagem de Santa Catarina. O seu interior é revestido a azulejos com bancos corridos em cantaria. No pavimento podem-se observar duas lápides tumulares. A Capela do Leão apresentava um magnífico retábulo do século XVI, com nove molduras representando cenas da vida de Santa Catarina e outras figuras da Igreja. No interior da capela conservam-se ainda algumas tábuas pintadas e uma imagem em madeira policromada de Santa Catarina.


Igreja da Misericórdia com a estátua do Cardeal de Alpedrinha
Igreja da Misericórdia com a estátua do Cardeal de Alpedrinha

Igreja da Misericórdia

A Igreja da Misericórdia é um bonito templo e está localizado à margem da N18. O edifício primitivo seria uma construção do século XVI que terá sido reconstruido durante o século XVIII, aquando da possível construção do Hospital da Misericórdia.

Durante as Invasões Francesas a Igreja foi profanada, tendo o hospital sido encerrado durante um longo período. Durante as obras de recuperação do hospital os doentes foram transferidos para o Palácio do Picadeiro que então se encontrava desocupado. Em 2004, um incêndio arruinou o interior da Igreja.

No seu interior apresenta bonitos retábulos em talha dourada e no piso da Igreja são visíveis lápides tumulares.

Capela de Santo António, em Alpedrinha
Capela de Santo António, em Alpedrinha

Capela de Santo António

Já da parte de baixo da N18 ergue-se a Capela de Santo António. Este templo é uma construção do século XVIII e reedificado, depois, no decorrer no século XIX. No seu interior, na capela-mor, apresenta um retábulo em talha pintada, marmoreados fingidos e dourado.

Junto à Capela de Santo António ergue-se o Monumento Comemorativo do VI Centenário do Nascimento do Santo Condestável.


Teatro de Alpedrinha

Foi aqui, em Alpedrinha, que surgiu o primeiro teatro do distrito de Castelo Branco. O actual edifício do Teatro de Alpedrinha, junto à N18, foi inaugurado em 1894. Para aquela altura, e para a vila, este edifício era bastante amplo possuindo 12 camarotes, galerias e uma plateia com cerca de 200 lugares. O Teatro, que passou por vários locais, ainda hoje continua em funcionamento e é usado pela Companhia Teatro Clube de Alpedrinha.

No entanto, na origem deste Teatro esteve um grupo de actores amadores composto por rapazes de Alpedrinha que, em 1839, fundaram o primeiro teatro do distrito de Castelo Branco, a “Casa da Ópera”, também conhecida por Teatro do Calvário. Na altura, adaptaram algumas casas no bairro do Calvário para assim nascer uma casa de espectáculos. Este primeiro espaço viria a encerrar em 1855.

Em 1858 foi adaptado um outro edifício na rua dos Valadares para surgir um novo Teatro. Ficou conhecido como o Teatro da rua dos Valadares ou Teatro de Santa Catarina, por ficar próximo à capela de Santa Catarina. No ano seguinte, um grupo de rapazes que frequentava a Universidade de Coimbra viria a comprar o espaço e fizeram um Teatro à imagem do Teatro Académico, com frisas e camarotes fechados. O espaço foi dinamizado durante muitos anos até que, em 1891, um violento incêndio destruiu todo o edifício.

A ideia de construção de um novo Teatro viria a surgir em 1893, que viria a dar origem ao actual Teatro de Alpedrinha. Este espaço viria a ser ampliado em 1904, criando-se um espaço social com um salão e uma sala de bilhar. Já em meados do século XX, o espaço social foi profundamente remodelado, acrescentando-se mais um piso.

Em 1978 o edifício apresentava-se em avançado estado de degradação, pelo que foi alvo de profundas obras de recuperação com o objectivo de reconstruir a sala de espetáculos, tornando-a mais moderna e funcional. As obras iniciaram-se em 1981 e duraram mais de 13 anos. No ano 2000 viriam a ser realizadas novas melhorias no edifício. Atualmente, o Teatro Clube de Alpedrinha é uma associação sem fins lucrativos.


Uma outra atividade cultural com grande tradição em Alpedrinha, para além da arte de representar, foram as escolas de música e as bandas filarmónicas. Estas últimas ganharam tanto prestígio que, em toda a raia, qualquer romaria tinha de ter a Banda Filarmónica de Alpedrinha a tocar. A tradição musical ganhou tal força que por aqui se dizia que “em Alpedrinha até os gatos sabiam música”. As filarmónicas, hoje, já não existem mas alguns instrumentos e partituras de compositores da terra estão expostos no Museu da Música, na Casa da Família Osório. Na vila, para além do já referido Museus dos Embutidos, há ainda um Museu de Arte Sacra (na igreja matriz) e o Museu Etnográfico, gerido pela Liga dos Amigos de Alpedrinha, no antigo edifício dos Paços do Concelho.


Vista geral de Alpedrinha
Vista geral de Alpedrinha

Numa volta mais completa pela vila de Alpedrinha vai encontrar diversas fontes e chafarizes com água oriunda das diversas nascentes existentes na encosta da serra da Gardunha. Ainda poderá encontrar algumas casas senhoriais ou apalaçadas como a Casa da Comenda (século XVII), o Solar dos Pancas, a casa do Cardeal D. Jorge da Costa, a Casa do Pátio, a Casa da Família Caldeira e diversas capelas: a Capela do Espírito Santo que terá sido a primitiva igreja paroquial até à construção da actual, supondo-se que tenha sido edificada pelos Templários no século XIII e reconstruída no século XVII; a Capela do Anjo da Guarda ou Capela de São Miguel, já fora do centro da vila (que aparece referenciada no século XV, e que provavelmente foi reformada no decorrer do século XVI, de que não restará qualquer vestígio, pois foi deslocada e reconstruída no início do século XX); a Capela do Senhor da Oliveira (Século XVIII); a Capela do Menino Deus (século XVI); e a Capela de Santa Maria Madalena.

Capela do Espírito Santo em Alpedrinha
Capela do Espírito Santo

Alpedrinha é, assim, uma vila com muitos segredos e histórias que encantam qualquer viajante. É uma joia escondida. É uma espécie de museu natural rodeado pela bonita paisagem da serra da Gardunha com o seu casario tradicional a estender-se, encosta acima, entre ruas sinuosas e estreitas. Visitar esta vila pitoresca no concelho do Fundão é como fazer uma viagem no tempo.


Ali perto…

Castelo Novo
Castelo Novo

A cerca de nove quilómetros de Alcaide fica a pitoresca Aldeia Histórica de Castelo Novo onde Linha de Terra já esteve (ler aqui). Castelo Novo está situado num anfiteatro natural de grande beleza enquadrado pela serra da Gardunha, onde os diferentes tons de verde contrastam com o escuro do granito.

Castelo Novo é uma localidade com mais de 800 anos de história, com a sua origem ligada aos Templários. Ao longo do tempo a vila conseguiu preservar o seu legado com uma arquitectura marcadamente medieval com alguns edifícios manuelinos e barrocos.



Alcaide
Alcaide

Alcaide é a capital do cogumelo e Linha de Terra também já lá esteve (ver aqui). Nesta pequena aldeia com 800 anos de história realiza-se (em Novembro) um evento único, o Míscaros – Festival do Cogumelo, festival que leva gente de todo o país até à aldeia.

Alcaide, a cerca de dez quilómetros de Alpedrinha, é uma das mais antigas povoações da serra da Gardunha com uma paisagem e um património muito interessante como é o caso dos antigo edifício dos Paços do Concelho, da bonita igreja de São Pedro (século XVI), da torre sineira e das muitas capelas dos séculos XVI e XVII espalhadas pela aldeia.


Alcongosta fica a cerca de dez quilómetros de Alcaide e é conhecida por ser terra de cerejas – a famosa Cereja do Fundão. 60% da produção nacional de cereja está aqui, por isso recomendo um passeio pela aldeia e arredores se for tempo de cereja. Um espectáculo imperdível de oito mil hectares de cultivo de cereja que que se cobrem de flores brancas na primavera, e que se pintam de vermelho vivo, no verão.



 
 
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